30 de nov. de 2022

 

A minha voz acende-se e apaga-se conforme o que a rodeia, é suscetível, surda aos meus desejos, guia-me a maioria das vezes por onde lhe apetece. Domino-a com silêncios rigorosos. Se encontrar alguém que lhe pareça tocar na mesma afinação, junta-se a ele, não precisa de mim senão para lhe dar corpo. Se lhe der trela, leva-me certamente a um café, gosta do sabor acre e doce dos cigarros e da viscosidade de um licor. Exige cuidados sem fim, impressionável e sentimental, é um correr de lamurias, que a inibo de ir onde podia, que estou sem condições para o seu estatuto, os pulmões definham e ela está no pico da sua grandeza. Gosta de discutir, eu já não tenho pachorra, bastam duas ou três palavras para a ver esfregar as mãos. Tive de lhe impor um regime austero, fala ao meu comando e se houver dúvidas sobre quem conduz quem, ponho a mão à frente da boca. Mas tem um gosto ancestral pela disciplina, e marca passo ao lado dos pensamentos que dão em debandada quando ouvem o tocar dos clarins. Começou a responder-me com frases feitas para mostrar que por mais magra que fosse a manifestação não abdicaria do seu estilo. Cansado dos seus caprichos, experimentei prolongar os silêncios, uma semana, um mês, já raramente me canta ao ouvido, ando com um caderninho atrás para quando preciso de falar com alguém, mas a cabra tinha poiso assente nas minhas entranhas, e palavra aqui, palavra ali vai deturpando o que escrevo.

29 de nov. de 2022

 

Qualquer coisa teima em atrasar-me o passo, depois de ter esticado o pescoço à beira-mar, um vento agudo, rápido e inesperado, cortou-me a garganta, a harpa que me anima o corpo perdeu a arte de passar despercebida. Hoje, sem qualquer pudor, era o centro das atenções. Um ardor constante como uma caldeira sobreaquecida e uma voz que não me pertencia. Uma voz que, por momentos, passada a estranheza da sua primeira aparição, me fascinou. Não é todos os dias que a que dizem marcar a estabilidade de uma identidade muda. Aveludada e grave, com muito mais vigor do que a minha, parece ter percorrido o mundo, tem um ritmo largo como um contrabaixo que sustenta os rodopios de uma andorinha. Uma voz vagabunda, que nunca andou de barco que não fosse a remos, nem de comboio a pagar bilhete, não é voz que se passeie por salões, sabe a gravidade de um prazer gratuito, é com um cigarro no canto dos lábios que arrisca levar uma reprimenda. Talvez tenha que ser assim para aguentar os coices que recebe sem ir a correr procurar a mamã. Não me posso acostumar a ela, surpreendeu-me durante a noite como um fantasma, vai desaparecer do mesmo modo, dura como é, sem dar explicações a ninguém.

28 de nov. de 2022

 

Saí de casa num passo largo, tão largo que a rua se afunilava como um carril, rua que entregue a si mesma é de uma monotonia sem igual, estreita e curta, sem grandes prodígios nos prédios que me encaminham até ao centro da cidade. Surpreendi-me porque parecia decidido a ir ao encontro de qualquer coisa, mas não tinha nada que me esperasse em lugar nenhum. Tudo estava singularmente indiferente à minha passagem, temia que se ficasse quieto a rua começaria a ruir. No café tirei o casaco e a impaciência, sentei-me junto à janela onde me costumo sentar, na mesa ao lado, uma mulher com um caderno aberto, rosto apoiado na mão esquerda, rabiscava devagar como se as palavras lhe viessem de um lugar distante. Fiquei visivelmente perturbado, como uma corda afinada um tom acima, movia-me a custo, a luz transparente que entrava pelos vidros altos recortava o café em dois triângulos equilibrados, parava junto à minha mesa, deixando-a no lado sombrio, por momentos estávamos demasiado próximos e a uma distância incalculável. Talvez isto se deva ainda à impaciência que trouxe de casa, não vejo outra razão para me sentir incomodado por uma pessoa que não conheço, certamente se está a borrifar se hesito a pôr os livros do lado esquerdo ou direito da mesa. Claro que estava curioso pelo que escrevia no caderno, e, não me vou armar em duro, era uma bela figura a menos de três palmos de mim, não era a desconfiança que me atrapalhava, mas tudo aquilo que não conseguia verbalizar na altura. O cabelo negro atado, um caracol caído sobre a face rosada como um Peiot hebraico num rapaz imberbe, o pescoço longo e branco como um choupo, enquanto os olhos imóveis fixavam a ponta da caneta com a impassibilidade de um cirurgião. Lembro-me que, misturado ao aroma torrado do café, um perfume cítrico e adocicado dava a impressão de estarmos no exterior. A luz entrava pelas altas janelas como através de um bosque. O que escreveria no caderno? Talvez segredos inconfessáveis, ou a lista de compras a fazer, seja o que for, ficará consigo do outro lado do muro onde escrevi estas palavras.

27 de nov. de 2022

 Na orla do terreno, o arco-íris brilhante do óleo convencem-me que a morte não se veste de negro, mas, com um robe extravagante, é com estrondo e opulência que toca as vestes do mundo, teme que ninguém dê por ela. A exaltação deixa cores garridas por onde passa, o roxo aureolado de verde num rosto de tez clara, a argila prateada pelo fósforo dos fertilizantes, os berros acesos como holofotes, faces rubras de sangue, a dormência branca do álcool com os punhos cerrados. A fúria deixa sem terra o singular comércio dos discretos.

24 de nov. de 2022

 Um animal adormecido, com o dorso rijo e crestado, a chuva dá-lhe um ar de porcelana, diria morto, não fosse o susto que apanhei quando o tomei por tal, a vila move-se de um modo tão gradual que nos esquecemos dela. Estamos no tempo dos vapores, as janelas embaciadas, as nuvens obstinadas, os regatos fluentes pelas valetas, o cigarro que se acende para não pensar nos pés molhados. A água desce, corre com uma dedicação exímia para o fundo, mas o vapor, numa loucura difícil de contornar, vai para onde lhe dá o vento. Tempos espirituais, se o sopro ainda tivesse o peso que tinha para os velhos teólogos, obcecados por o enquadrarem, ficaram com ele emoldurado. Por aqui entranha-se na pedra, deixa-a fumegante e porosa, estende-se na colina à sua frente, uma miragem da lagoa que desapareceu, talvez seja assim que enleia sonho com sonho, espalhando farrapos sobre os montes até que alguém se lembre do que cá não está.

22 de nov. de 2022

 

Acontece andar às voltas sem que nada de novo me interpele, fechado na minha pequena cidadela, olho para o que me rodeia e não vejo nada. Na verdade, a cidadela não é minha, mas de um invasor que me sequestrou sem se preocupar com o consentimento. Um pensamento coloniza-me, deixa-me atado ao centro de um carrossel. A maioria das vezes é a caminhada que me salva do delírio. Em todo o caso, é sempre melhor andar, por mais encarcerado que esteja, a possibilidade de me assombrar com a passagem de um estranho pode levar-me a saltar os muros da fortificação. Apesar de ter crescido numa casa com fortes práticas religiosas, ou talvez por isso, tive sempre uma relação problemática com a ideia de pureza, não sei o que representa, se imaginar um lençol de linho acabado de lavar, imaculado, quer dizer... maculado (é o sem mancha que me é difícil de representar), manchado pela luz, pelo perfume do sabão, pelas pernas que se esfregam e o deixam liso e mais suave ao toque, manchado pelo peso dos sonhos e por todas essas coisas que não sei de onde vêm. O mais perto que estive de qualquer coisa imaculada, foi de noite, ao tentar dizer como surge e me veste, como se despenha por todas as aberturas, espessa, uniforme, como uma mancha que cresce sobre todas as outras, para a dizer teria de encontrar um negro mais brilhante, e quando acho que descobri uma nuance escura o suficiente, oiço um zumbido, uma melga que se intromete entre o breu e todas as vozes que fingia não ouvir, melhor do que nada, esse nada que se escapa sempre por mais fina que seja a malha do coador. E a melga? Uma aparição ex-nihilo, e o que faço? Arregaço a manga, meto o braço esquerdo fora dos lençóis acabados de lavar e espero, espero como um caçador experiente, que ela cometa o primeiro deslize.

20 de nov. de 2022

 

A chuva numa cortina obstinada, sem hesitações, ténue, afaga a terra numa demonstração de afeto, as pessoas passam por este véu cabisbaixas, num gesto que, se fosse despojado de interesse próprio, poderia ser um impulso de pudor ao entrever uma tal prova de amor. Apesar da hora, a luz tem uma insígnia noturna, justa, sem distinguir nada em particular, estende-se com o mesmo langor por todo o lado, como a chuva numa cova de coelhos, derrama-se no subterrâneo onde vivemos, aproxima o céu da terra do único modo suportável, sem trombetas nem rufos de tambor, num furor discreto e silencioso. Está um dia propício a esquecimentos, olhos fixos na janela, tanta coisa para fazer, mas os deveres sossegam sob este lençol, é uma compressa húmida na pele irritada, e nada se faz. A quietude, prenhe de sonhos, exala uma amnistia balsâmica. A janela, que normalmente desaparece na dinâmica exaltada do exterior, ganha um semblante de moldura, no seu interior, como um segredo revelado numa pintura, a chuva cheia de murmúrios enfeitiça a rua.

16 de nov. de 2022

 

Esborratado de carvão, o céu resguarda a vila com um cinzento mineral, a borraça ilumina a pedra, deixa-a viva e severa como um gume. Trago iodo no cabelo e o perfume dos cedros no corpo por ter tateado os mortos. Hoje, mais do que nunca, tenho de me juntar aos homens, ao borbulhar repetido dos murmúrios, fechar os olhos que abri de noite e encostar a cabeça ao ronronar das gentes do café. Passei demasiado tempo encostado aos gemidos da barriga e ao lascar da cabeça, podia ser muda a interioridade, tantos a procurar dar voz às entranhas e elas numa miríade de ruídos indiferentes à leitura, seja como for, as tripas que se fodam, se fizerem nascer um parágrafo que se sustente, que se torçam à vontade, ele que permaneça teso a marcar a presença de um desejo.

15 de nov. de 2022

 

Estou numa fase sossegada da vida, baloiço a uma velocidade que não provoca enjoos nem ansiedades, graças a isso posso aventurar-me por outros territórios, ou melhor, posso deambular por elementos mais frágeis que o fervor dos nervos abrasaria sem pudor. Isto não me deixa despreocupado, pelo contrário, sei que me devo armar para fazer frente à alegria, ela é naturalmente feroz e voltaria a minha canoa ao contrário num estalar de dedos. Já demasiadas vezes fui atropelado por combater gigantes com uma fisga. Entretanto, nada se impõe bruscamente, consigo ouvir o que me rodeia sem estar na tensão disparatada de me querer fazer entender. Neste débil eco-sistema consigo ter o prazer de um cigarro sem ter de o acender, fora dele é o fogo que devora o fogo, e um cigarro é um punhado de erva seca que desaparece como um caramelo na boca de uma ninfa, se lhe incendeio a ponta é para que a urgência não passe despercebida, a respiração salta para o palco, o fumo como um rufar de tambores anuncia a chegada de uma vedeta que nunca vem. Talvez esteja demasiado entusiasmado em relação ao fumo, mas tudo isso me passeia entre os dedos quando enrolo um cigarro, se estiver sossegado não lhe chego o lume, sinto-lhe o aroma torrado, quieto, como junto a um animal que desconheço.

14 de nov. de 2022

 

Olhos redondos, trémulos como um pequeno carneiro, passam por mim e pela janela onde se encosta um homem largo que espera por algo que gosta, vejo-lhe o bigode arrebitado e os lábios contraídos de quem assobia. Os pequenos olhos flutuam pelo café, ia dizer inseguros, mas é presunção da minha parte, vejo um rosto fantasmagórico entrelaçado em tensões e palavras que desconheço, a maioria das vezes sem saber se o separo das minhas inclinações. Uma pessoa quieta, sem um sorriso que a deixe uns centímetros acima do chão, leva-me precipitadamente a concebê-la num estado melancólico, mas isso é um balde de carvão da minha mina de aborrecimento. Ao reconhecer isso comecei a desconfiar dos sentimentos vagos, são como grandes cruzeiros onde passeiam vestes sem gente dentro. Parecia perdida, ou num lugar que desconhece, desequilibrada sobre um terreno trepidante, um tremor delicado que apenas se via no olhar. Levantou-se bruscamente, e percebi que confundi um temor voluptuoso com um semblante vigilante. Ver os outros é como meter as mãos num tanque enlameado e tentar descrever o que se tateia sem o tirar para a luz do sol.

13 de nov. de 2022

 

Um dia cheio como um queijo não precisa de adendas nem comentários, não seriam mais que etiquetas penduradas num fato novo, por estes lados tenho de conciliar os retalhos dispersos pelo vento. Procurar uma forma não é querer encontrar uma ordem, nem ordenar o que for, está mais próximo da ordenha do que da ordenação, ordenha de uma cabra difícil de agarrar, tentar que o dia fermente com a paciência de quem agita um ramo de cardo num copo de leite. O meu pai contou-me várias vezes que o melhor leite que bebera fora das tetas de uma cabra por volta dos seis anos, um leite gordo e de travo forte que me faria bolçar como um bebé, a sua infância foi passada sobre a palha e debaixo do estalar do vime. De resto só sei o que imagino, não me contou quase nada. Consigo vê-lo de mangas arregaçadas, boina torta a lembrar os bascos, aborrecido, a ouvir os grilos, a olhar para cabra, a agarrar-lhe as tetas cheio de febre e a beber como quem abre uma porta para outro lado.

5 de nov. de 2022

 

A rua que atravesso faz de morta sob a borraça matinal, irá erguer-se timidamente, uma onda impaciente, no encalço de uma margem que tarda, que julga próxima. No empedrado do largo as sombras dos plátanos tecem uma renda alourada sobre a qual a fachada da Igreja aparece como a imagem de um santo num napperon de uma cómoda ao abandono. Sento-me num banco de pedra do telheiro, consigo notar o rumor que entra no castelo, os comerciantes que começam a abrir os negócios, a transformação da vila num estalar de dedos, uma mudança de sexo indesejada, do outro lado do alvoroço fica um desabrigo constrangedor, de crédito inviável, uma memória como um fio de água sob uma placa de gelo, sem rentabilidade ao dispor, as ruas sem lampejos são como as axilas de um amante para um enamorado.

3 de nov. de 2022

 

A interioridade é um copo de águas estagnadas onde o que não se vê serve de engodo para o que não se sabe. Lá fora tudo espera a rede bem cosida do pescador. O peixe-dourado que pulsa sob o visível aguarda quem o mostre sem temer o regalo do seu brilho. Conceber é tudo, dizia Matisse, captar em simultâneo, fazer com que algo nasça, talvez por isso também signifique engravidar. Os pequenos peixes engravidam a vegetação que rodeia o aquário, o mundo gira em torno do delgado vidro como um escultor em volta de um torso com as mãos abertas, andar em redor de alguma coisa é uma dança que abdico a custo, escrevo com as minhas obsessões, ando às voltas até ficar com as mãos enleadas a um corpo incandescente, normalmente, ou a mão se afasta do calor inesperado ou a coisa escapa por um terreno acidentado. Os peixes embriagam a água onde o quadro ecoa, enlouquecem nos círculos que se repetem, olham-nos de dentro do vermelho como do lado de fora do mundo.

1 de nov. de 2022

 

O céu cinza-escuro está mais baixo do que ontem, a praça, tímida e cintada por automóveis parados, espera que o feriado traga a bonança do papel amarrotado em troca dos legumes viçosos. Mais denso sob a luz peneirada, o verde tem uma posição altiva entre as insolentes laranjas. As pedras largam um cheiro húmido que se mistura com a acidez dos vegetais como se uma pá tivesse voltado um pedaço de terra do avesso, os vendedores falam mais baixo do que o costume, de tal modo que as vozes não se distinguem umas das outras, são como um grande zumbido, como se um pudor súbito lhes tivesse tocado a garganta e os santos todos do dia estivessem presentes, é pouco provável, e santo é o pregão que traz o cliente a partilhar a riqueza que não é dele, no entanto, mais acanhados do que o costume, sussurram os preços aos que tateiam a fruta. Tudo isto me faz frente como num desafio, mesmo nos dias em que lhes passo ao lado enroscado nas pequenas desilusões, bate o pé mais ou menos bruscamente à espera de uma reação. Estou sentado ao topo da praça, sem nada que me separe dos comerciantes, no entanto, sinto-me do lado de lá de uma parede, o caderno e as anotações esfarrapadas são como um arbusto onde me escondo, como quando sentado a uma mesa com a mão apoiada na testa finjo olhar para o papel enquanto a minha atenção está na mesa à frente, na metamorfose de uns lábios de cetim numa máquina de triturar, uma boca que, numa elasticidade assombrosa, deixa de ser a fronteira de um país encantado onde colheria segredos, para se tornar numa roda de dentes que esfrangalha o mundo.