20 de nov. de 2022

 

A chuva numa cortina obstinada, sem hesitações, ténue, afaga a terra numa demonstração de afeto, as pessoas passam por este véu cabisbaixas, num gesto que, se fosse despojado de interesse próprio, poderia ser um impulso de pudor ao entrever uma tal prova de amor. Apesar da hora, a luz tem uma insígnia noturna, justa, sem distinguir nada em particular, estende-se com o mesmo langor por todo o lado, como a chuva numa cova de coelhos, derrama-se no subterrâneo onde vivemos, aproxima o céu da terra do único modo suportável, sem trombetas nem rufos de tambor, num furor discreto e silencioso. Está um dia propício a esquecimentos, olhos fixos na janela, tanta coisa para fazer, mas os deveres sossegam sob este lençol, é uma compressa húmida na pele irritada, e nada se faz. A quietude, prenhe de sonhos, exala uma amnistia balsâmica. A janela, que normalmente desaparece na dinâmica exaltada do exterior, ganha um semblante de moldura, no seu interior, como um segredo revelado numa pintura, a chuva cheia de murmúrios enfeitiça a rua.

Nenhum comentário:

Postar um comentário