Acontece andar às voltas sem que nada de novo me interpele, fechado na minha pequena cidadela, olho para o que me rodeia e não vejo nada. Na verdade, a cidadela não é minha, mas de um invasor que me sequestrou sem se preocupar com o consentimento. Um pensamento coloniza-me, deixa-me atado ao centro de um carrossel. A maioria das vezes é a caminhada que me salva do delírio. Em todo o caso, é sempre melhor andar, por mais encarcerado que esteja, a possibilidade de me assombrar com a passagem de um estranho pode levar-me a saltar os muros da fortificação. Apesar de ter crescido numa casa com fortes práticas religiosas, ou talvez por isso, tive sempre uma relação problemática com a ideia de pureza, não sei o que representa, se imaginar um lençol de linho acabado de lavar, imaculado, quer dizer... maculado (é o sem mancha que me é difícil de representar), manchado pela luz, pelo perfume do sabão, pelas pernas que se esfregam e o deixam liso e mais suave ao toque, manchado pelo peso dos sonhos e por todas essas coisas que não sei de onde vêm. O mais perto que estive de qualquer coisa imaculada, foi de noite, ao tentar dizer como surge e me veste, como se despenha por todas as aberturas, espessa, uniforme, como uma mancha que cresce sobre todas as outras, para a dizer teria de encontrar um negro mais brilhante, e quando acho que descobri uma nuance escura o suficiente, oiço um zumbido, uma melga que se intromete entre o breu e todas as vozes que fingia não ouvir, melhor do que nada, esse nada que se escapa sempre por mais fina que seja a malha do coador. E a melga? Uma aparição ex-nihilo, e o que faço? Arregaço a manga, meto o braço esquerdo fora dos lençóis acabados de lavar e espero, espero como um caçador experiente, que ela cometa o primeiro deslize.
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