24 de nov. de 2022

 Um animal adormecido, com o dorso rijo e crestado, a chuva dá-lhe um ar de porcelana, diria morto, não fosse o susto que apanhei quando o tomei por tal, a vila move-se de um modo tão gradual que nos esquecemos dela. Estamos no tempo dos vapores, as janelas embaciadas, as nuvens obstinadas, os regatos fluentes pelas valetas, o cigarro que se acende para não pensar nos pés molhados. A água desce, corre com uma dedicação exímia para o fundo, mas o vapor, numa loucura difícil de contornar, vai para onde lhe dá o vento. Tempos espirituais, se o sopro ainda tivesse o peso que tinha para os velhos teólogos, obcecados por o enquadrarem, ficaram com ele emoldurado. Por aqui entranha-se na pedra, deixa-a fumegante e porosa, estende-se na colina à sua frente, uma miragem da lagoa que desapareceu, talvez seja assim que enleia sonho com sonho, espalhando farrapos sobre os montes até que alguém se lembre do que cá não está.

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