14 de nov. de 2022

 

Olhos redondos, trémulos como um pequeno carneiro, passam por mim e pela janela onde se encosta um homem largo que espera por algo que gosta, vejo-lhe o bigode arrebitado e os lábios contraídos de quem assobia. Os pequenos olhos flutuam pelo café, ia dizer inseguros, mas é presunção da minha parte, vejo um rosto fantasmagórico entrelaçado em tensões e palavras que desconheço, a maioria das vezes sem saber se o separo das minhas inclinações. Uma pessoa quieta, sem um sorriso que a deixe uns centímetros acima do chão, leva-me precipitadamente a concebê-la num estado melancólico, mas isso é um balde de carvão da minha mina de aborrecimento. Ao reconhecer isso comecei a desconfiar dos sentimentos vagos, são como grandes cruzeiros onde passeiam vestes sem gente dentro. Parecia perdida, ou num lugar que desconhece, desequilibrada sobre um terreno trepidante, um tremor delicado que apenas se via no olhar. Levantou-se bruscamente, e percebi que confundi um temor voluptuoso com um semblante vigilante. Ver os outros é como meter as mãos num tanque enlameado e tentar descrever o que se tateia sem o tirar para a luz do sol.

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