Um dia cheio como um queijo não precisa de adendas nem comentários, não seriam mais que etiquetas penduradas num fato novo, por estes lados tenho de conciliar os retalhos dispersos pelo vento. Procurar uma forma não é querer encontrar uma ordem, nem ordenar o que for, está mais próximo da ordenha do que da ordenação, ordenha de uma cabra difícil de agarrar, tentar que o dia fermente com a paciência de quem agita um ramo de cardo num copo de leite. O meu pai contou-me várias vezes que o melhor leite que bebera fora das tetas de uma cabra por volta dos seis anos, um leite gordo e de travo forte que me faria bolçar como um bebé, a sua infância foi passada sobre a palha e debaixo do estalar do vime. De resto só sei o que imagino, não me contou quase nada. Consigo vê-lo de mangas arregaçadas, boina torta a lembrar os bascos, aborrecido, a ouvir os grilos, a olhar para cabra, a agarrar-lhe as tetas cheio de febre e a beber como quem abre uma porta para outro lado.
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