Estou numa fase sossegada da vida, baloiço a uma velocidade que não provoca enjoos nem ansiedades, graças a isso posso aventurar-me por outros territórios, ou melhor, posso deambular por elementos mais frágeis que o fervor dos nervos abrasaria sem pudor. Isto não me deixa despreocupado, pelo contrário, sei que me devo armar para fazer frente à alegria, ela é naturalmente feroz e voltaria a minha canoa ao contrário num estalar de dedos. Já demasiadas vezes fui atropelado por combater gigantes com uma fisga. Entretanto, nada se impõe bruscamente, consigo ouvir o que me rodeia sem estar na tensão disparatada de me querer fazer entender. Neste débil eco-sistema consigo ter o prazer de um cigarro sem ter de o acender, fora dele é o fogo que devora o fogo, e um cigarro é um punhado de erva seca que desaparece como um caramelo na boca de uma ninfa, se lhe incendeio a ponta é para que a urgência não passe despercebida, a respiração salta para o palco, o fumo como um rufar de tambores anuncia a chegada de uma vedeta que nunca vem. Talvez esteja demasiado entusiasmado em relação ao fumo, mas tudo isso me passeia entre os dedos quando enrolo um cigarro, se estiver sossegado não lhe chego o lume, sinto-lhe o aroma torrado, quieto, como junto a um animal que desconheço.
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