Saí de casa num passo largo, tão largo que a rua se afunilava como um carril, rua que entregue a si mesma é de uma monotonia sem igual, estreita e curta, sem grandes prodígios nos prédios que me encaminham até ao centro da cidade. Surpreendi-me porque parecia decidido a ir ao encontro de qualquer coisa, mas não tinha nada que me esperasse em lugar nenhum. Tudo estava singularmente indiferente à minha passagem, temia que se ficasse quieto a rua começaria a ruir. No café tirei o casaco e a impaciência, sentei-me junto à janela onde me costumo sentar, na mesa ao lado, uma mulher com um caderno aberto, rosto apoiado na mão esquerda, rabiscava devagar como se as palavras lhe viessem de um lugar distante. Fiquei visivelmente perturbado, como uma corda afinada um tom acima, movia-me a custo, a luz transparente que entrava pelos vidros altos recortava o café em dois triângulos equilibrados, parava junto à minha mesa, deixando-a no lado sombrio, por momentos estávamos demasiado próximos e a uma distância incalculável. Talvez isto se deva ainda à impaciência que trouxe de casa, não vejo outra razão para me sentir incomodado por uma pessoa que não conheço, certamente se está a borrifar se hesito a pôr os livros do lado esquerdo ou direito da mesa. Claro que estava curioso pelo que escrevia no caderno, e, não me vou armar em duro, era uma bela figura a menos de três palmos de mim, não era a desconfiança que me atrapalhava, mas tudo aquilo que não conseguia verbalizar na altura. O cabelo negro atado, um caracol caído sobre a face rosada como um Peiot hebraico num rapaz imberbe, o pescoço longo e branco como um choupo, enquanto os olhos imóveis fixavam a ponta da caneta com a impassibilidade de um cirurgião. Lembro-me que, misturado ao aroma torrado do café, um perfume cítrico e adocicado dava a impressão de estarmos no exterior. A luz entrava pelas altas janelas como através de um bosque. O que escreveria no caderno? Talvez segredos inconfessáveis, ou a lista de compras a fazer, seja o que for, ficará consigo do outro lado do muro onde escrevi estas palavras.
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