29 de nov. de 2022

 

Qualquer coisa teima em atrasar-me o passo, depois de ter esticado o pescoço à beira-mar, um vento agudo, rápido e inesperado, cortou-me a garganta, a harpa que me anima o corpo perdeu a arte de passar despercebida. Hoje, sem qualquer pudor, era o centro das atenções. Um ardor constante como uma caldeira sobreaquecida e uma voz que não me pertencia. Uma voz que, por momentos, passada a estranheza da sua primeira aparição, me fascinou. Não é todos os dias que a que dizem marcar a estabilidade de uma identidade muda. Aveludada e grave, com muito mais vigor do que a minha, parece ter percorrido o mundo, tem um ritmo largo como um contrabaixo que sustenta os rodopios de uma andorinha. Uma voz vagabunda, que nunca andou de barco que não fosse a remos, nem de comboio a pagar bilhete, não é voz que se passeie por salões, sabe a gravidade de um prazer gratuito, é com um cigarro no canto dos lábios que arrisca levar uma reprimenda. Talvez tenha que ser assim para aguentar os coices que recebe sem ir a correr procurar a mamã. Não me posso acostumar a ela, surpreendeu-me durante a noite como um fantasma, vai desaparecer do mesmo modo, dura como é, sem dar explicações a ninguém.

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