A minha voz acende-se e apaga-se conforme o que a rodeia, é suscetível, surda aos meus desejos, guia-me a maioria das vezes por onde lhe apetece. Domino-a com silêncios rigorosos. Se encontrar alguém que lhe pareça tocar na mesma afinação, junta-se a ele, não precisa de mim senão para lhe dar corpo. Se lhe der trela, leva-me certamente a um café, gosta do sabor acre e doce dos cigarros e da viscosidade de um licor. Exige cuidados sem fim, impressionável e sentimental, é um correr de lamurias, que a inibo de ir onde podia, que estou sem condições para o seu estatuto, os pulmões definham e ela está no pico da sua grandeza. Gosta de discutir, eu já não tenho pachorra, bastam duas ou três palavras para a ver esfregar as mãos. Tive de lhe impor um regime austero, fala ao meu comando e se houver dúvidas sobre quem conduz quem, ponho a mão à frente da boca. Mas tem um gosto ancestral pela disciplina, e marca passo ao lado dos pensamentos que dão em debandada quando ouvem o tocar dos clarins. Começou a responder-me com frases feitas para mostrar que por mais magra que fosse a manifestação não abdicaria do seu estilo. Cansado dos seus caprichos, experimentei prolongar os silêncios, uma semana, um mês, já raramente me canta ao ouvido, ando com um caderninho atrás para quando preciso de falar com alguém, mas a cabra tinha poiso assente nas minhas entranhas, e palavra aqui, palavra ali vai deturpando o que escrevo.
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