4 de dez. de 2022

 

A constipação macera-me o corpo, este, vivia numa sobriedade precária, agora espera alguma vitalidade enquanto plana numa indecisão entorpecida. Procuro-a nas coisas próximas, mas o meu cão dorme e nenhuma amazona atravessa a rua num passo desenvolto. Ficar aninhado num canto é construir uma cama de memórias que me irão atraiçoar, os convalescentes procuram a sombra como quem já sabe o que tem ao colo, mas se é entre memórias que vivo, se elas respiram como laranjas a perfumar o ar, penso nos cavalos de Faulkner que quietos ou a suar numa ladeira são todos fibra com a vida a zumbir entre as orelhas. Vejo a Laica, mesmo a dormir está alerta, pronta a dar um salto de ginasta se alguém bater à porta, uma ignição célere como fogo em feno louro, também eu, se perigo houvesse que me mostrasse o rosto, me ergueria destas águas tépidas onde me diluo como um saco de chá, ou talvez não, talvez ficasse a ponderar o que é e o que não é.

Nenhum comentário:

Postar um comentário