6 de dez. de 2022

 

O céu, um tecto, cinza e inerte sobre o delírio, mais baixo do que o costume, quase um abrigo, um pedaço de tinta estalada, inquietante, sempre manchado por uma porcaria qualquer, esse tecto sobre o delírio, um tecto falso, vazio, sem projector que o enfeite e me distraia da possibilidade de derrocada. Um sulco, como uma prega num vestido, varando-o de norte a sul, não me deixa desviar os olhos, uma cortina. Delirar é quando o arado se escapa ao sulco onde corria, diz o dicionário, que desta vez faz de pirómano em vez de polícia, o que sai fora da lira. O céu, uma caixa de ressonância, rasgado por um sulco, uma lira, dois cornos tensos sobre o vazio, nenhum dedo para o tocar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário