A interioridade é um copo de águas estagnadas onde o que não se vê serve de engodo para o que não se sabe. Lá fora tudo espera a rede bem cosida do pescador. O peixe-dourado que pulsa sob o visível aguarda quem o mostre sem temer o regalo do seu brilho. Conceber é tudo, dizia Matisse, captar em simultâneo, fazer com que algo nasça, talvez por isso também signifique engravidar. Os pequenos peixes engravidam a vegetação que rodeia o aquário, o mundo gira em torno do delgado vidro como um escultor em volta de um torso com as mãos abertas, andar em redor de alguma coisa é uma dança que abdico a custo, escrevo com as minhas obsessões, ando às voltas até ficar com as mãos enleadas a um corpo incandescente, normalmente, ou a mão se afasta do calor inesperado ou a coisa escapa por um terreno acidentado. Os peixes embriagam a água onde o quadro ecoa, enlouquecem nos círculos que se repetem, olham-nos de dentro do vermelho como do lado de fora do mundo.
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