1 de nov. de 2022

 

O céu cinza-escuro está mais baixo do que ontem, a praça, tímida e cintada por automóveis parados, espera que o feriado traga a bonança do papel amarrotado em troca dos legumes viçosos. Mais denso sob a luz peneirada, o verde tem uma posição altiva entre as insolentes laranjas. As pedras largam um cheiro húmido que se mistura com a acidez dos vegetais como se uma pá tivesse voltado um pedaço de terra do avesso, os vendedores falam mais baixo do que o costume, de tal modo que as vozes não se distinguem umas das outras, são como um grande zumbido, como se um pudor súbito lhes tivesse tocado a garganta e os santos todos do dia estivessem presentes, é pouco provável, e santo é o pregão que traz o cliente a partilhar a riqueza que não é dele, no entanto, mais acanhados do que o costume, sussurram os preços aos que tateiam a fruta. Tudo isto me faz frente como num desafio, mesmo nos dias em que lhes passo ao lado enroscado nas pequenas desilusões, bate o pé mais ou menos bruscamente à espera de uma reação. Estou sentado ao topo da praça, sem nada que me separe dos comerciantes, no entanto, sinto-me do lado de lá de uma parede, o caderno e as anotações esfarrapadas são como um arbusto onde me escondo, como quando sentado a uma mesa com a mão apoiada na testa finjo olhar para o papel enquanto a minha atenção está na mesa à frente, na metamorfose de uns lábios de cetim numa máquina de triturar, uma boca que, numa elasticidade assombrosa, deixa de ser a fronteira de um país encantado onde colheria segredos, para se tornar numa roda de dentes que esfrangalha o mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário