31 de jan. de 2023

 

O quarto fechado, inconstante como uma adolescente, é uma máquina do tempo que não depende de mim para funcionar. A cortina corrida por metade empurra a noite para o canto onde estão as teias por desfazer, o céu é um prato de porcelana, a luz entra como uma espada dentro de água. Ontem, amestrada pelo cansaço, a desordem era serena, o ar ameno e abrigado, agora, tiro a custo o braço do edredão. As madrugadas não conhecem medo quando a noite é um mergulho, mas não encontro a estima com que me acolheu, é um sítio pequeno que insiste para que o abandone, despojado, pronto para depender mais do sonho do que da realidade, recebe-me disperso como uma névoa, bebe-me horas a fio e deixa-me no embaraço de quem se despe sem saber o que abandonou. Ontem era o ponto de gravidade para onde caía em desamparo, hoje um barco numa cidade por imaginar.

26 de jan. de 2023

 

Acordei com um espectro colado a mim, quieto como um membro dormente, houve tempos em que se assemelhava a um bicho astuto que me sondava como uma raposa, tocava-me quando dormia para descobrir se vivia e me caçar com deleite, agora, está ao meu lado como uma divisão fechada, não me abandona para nada, parece esperar que diga alguma coisa, um animal sem nome, dos que escaparam ao chamamento quando Adão lhes encostou a língua torrada que os atravessou como um raio. A que falo é uma agulha sem fio, custa-lhe segurar uma boca com um limão, talvez por isso, me esburaque o corpo já por si dividido. Estendo a minha rede a sul e o norte é o silvar do vento, se olho um ombro não vejo o outro, se falo do seixo do tornozelo calo-me sobre a cova do joelho, tudo o que me mostra inteiro é um mal-entendido.

25 de jan. de 2023

 

Se me ponho a andar sem pensar, dou quase sempre por mim a ir de encontro a outros errantes, pergunto-me se não somos levados pelos querubins da ilusão, mensageiros perdidos que ao deixarem de saber porque vieram para este planeta se entretêm a conduzir os tolos por ruelas e jardins ao abandono. Ao reconhecerem um indeciso que joga aos dados nas bifurcações, assistem-nos com pequenos acenos, sinais incoerentes e disparatados que estimulam a nossa vontade de criar relações. A mim, que me vejo entre os mais desacertados dos colecionadores, fazem-me esquecer a musculatura mole que me envolve os ossos, e quando dou por ela estou debaixo de um pinheiro do outro lado do monte, há um contentamento inesperado em encontrar alguém que, levado pelas orelhas, se encontra sem nada melhor para fazer do que ouvir um pardal a resmungar. Os pequenos mensageiros saltam de atenção em atenção, quando alguém os abandona para se perder no seu tumulto interior, desesperam da falta de propósito e procuram de imediato outra alma predisposta a ser levada em devaneio.

24 de jan. de 2023

 

O empedrado da rua tem uma penugem verde que o sol distingue de manhã quando os raios rasam as pedras a contra pelo, mais forte que a vibração dos carros, sobe um apetite sem nome que revolve a terra com afã. Ando sobre um casaco do avesso num sonho por decifrar. A aparição esverdeada torna patente um amor da superfície por ela própria, uma vontade de estar onde a pele se encontra, mas ando sem saber de mim sobre a espuma da vegetação. No café, o braço de uma mulher sacode-me uma segunda vez, coberto de uma penugem loura, é um campo de fetos na clareira de um pinhal, os miúdos escondem como podem o assombro, entra-lhes nos poros como alecrim a arder numa fogueira, é uma vereda esguia sobre um terreno raso de tremoceiros.

20 de jan. de 2023

 

Balanço-me para a frente e para trás até que os pés caiam no regato que aqui passa. Estou perdido se acreditar que não me mexo, o candeeiro deixa-me as mãos torradas, cor de palha, faz do balcão uma canoa atolada num lamaçal. Balanço-me até perceber a velocidade com que a luz coalhada da porta se mistura com o pequeno farol, nervoso como um potro. Os dedos sobre o caderno esperam o alvoroço da cintilação. Se não me mexer estou perdido, por vezes são os lábios, outras são os pés, nunca me movo por inteiro. Baal Shem Tov fala do balanço de quem reza como alguém que se debate dentro de água. Estou do lado de fora no que toca a rezar, balanço-me no mercado mal iluminado, a cabeça bamba como uma palmeira a cortejar um pensamento.

18 de jan. de 2023

 

A rua é um pomo aberto antes das formigas lhe darem com o cheiro. O sol rasa as pedras e a toalha celeste retalha-se debaixo dos pés. O castelo está pendurado no monte como um esqueleto numa aula de anatomia, apenas o assobio do homem do lixo rompe o véu fantasioso que lhe cobre a ossada. É cedo, os lojistas chegam aos bochechos com os bolsos cheios de apetrechos, oiço-lhes a língua a bater nos dentes, os passos encolhidos, o fato apertado, a contração do possível deixa-os fora do motivo, também devo fazer rir o adversário, tal é a parafernália que trago para o combate, nunca sei porque porta escapo ao subterrâneo.

14 de jan. de 2023

 

A cabeça pende facilmente em direção ao solo, o crânio é demasiado pesado, é um terreno arenoso e cede naturalmente a reflexões graves, hoje o chão é um festim para os olhos entregues ao prazer de vadiar, o vendaval voltou tudo do avesso, encontro latas e papéis pela calçada, os homens e mulheres da cidade devem ter-se encontrado num festejo ancestral, num ritual que desconheço, mas que certamente os acompanha desde a origem dos tempos, agora dormem, exaustos, um sono despojado depois do sacrifício. Levanto a cabeça, o frio pica-me a face como se entrasse num campo verdejante, o ar desenha o caminho que faz até me chegar aos pulmões, tenho o rosto sóbrio, é um barco que corta o vento, uma foice que abre um trilho no meio do mato.

12 de jan. de 2023

 

Passo do quarto para a sala por um pequeno corredor que parece existir para que o ar não corra de uma divisão para a outra. A sala é o mais protegido dos compartimentos, com uma marquise à esquerda e um corredor à direita, nenhuma das paredes toca o ar salubre do exterior. No quarto giram ventos pela parede e os sonhos são seixos ao sabor da corrente. Tenho de me erguer para que aconteça alguma coisa, sacudo os braços e dou um par de passos antes de me sentar à mesa da divisão interior, tateio a madeira, é estável e recatada, pronta a desaparecer sob a toalha ou o que for que lhe ponha em cima, se receber o que vier com o pudor com que ela desaparece debaixo da folha de papel e sacudir os fantasmas como migalhas para o chão, talvez não me fique por tomar uma decisão, talvez seja a decisão errada, os erros são inevitáveis, como a corrente de ar que bate com as portas do corredor.

10 de jan. de 2023

 

Sento-me na mesa mais recuada do café, na ilusão que pertenço a outro espaço e me foi dada a graça de ver a vida dos outros sem fazer parte dela, mas hoje é a penúria que me leva a considerar os gestos que fazem. Perdi a chave que abre a cortina vítrea que os deixa idênticos uns aos outros. O mundo desaparece num estalar de dedos do outro lado da alcova, uma mãe demasiado zelosa aconchega-me o cobertor à volta do pescoço, tão esmerada e caprichosa que apenas respiro se não me mexer. Devo ter tocado numa figura interdita enquanto dormia, um mostrengo de regiões desabrigadas, invejoso do meu estado de vigia, adormeceu-me num gesto veloz e irrefletido, agora, espero que um perfume me tire a cabeça da almofada. A erva está quieta como um tapete, mesmo os ramos mais altos dos pinheiros parecem pertencer a uma gravura que se ajusta à torre de silêncio de um céu uniforme. A mesa recortada pela luz tem uma toalha loura que a deixa a pairar sobre a sombra onde se apoia. Os pássaros andam longe a mendigar migalhas pelo parque, se, entretanto, o vento não sacudir a rua, voltam como um bando de miúdos para o recreio. Por agora nada converge para lado nenhum, nem os comboios abanam o prédio da dormência que o agarrou, parece aguardar que alguém chegue para que o tempo corra num ribeiro que secou.

5 de jan. de 2023

 

O inverno baixa o pulso dos dias e exige atenção a quem caminha pela geada. O tumulto cresce em segredo. A casa ganha uma casca forte como um carvalho, os vidros embaciados, a temperatura bondosa do perro, os estalidos do aquecedor, recebem-me como um amigo. O prédio tem o privilégio da escadaria, uma antecâmara onde me preparo para o tropeço nos outros, desço os andares como um perdigueiro mergulha o nariz numa moita, quando chego à porta da rua todas as pequenas impressões desaparecem com o vento, saio despojado, pronto a acolher o movimento da pequena cidade onde habito. Ando pelas ruas alegre como um miúdo que salta vedações. Encostada à porta do banco, uma mulher num vestido de lã branca, um nevão sobre colinas alentejanas, a face rosada fura o gelo, é uma planta sem nome com os olhos pintados de azul, uma emboscada de milagres. A pintura é uma sonda que explora o enigma da aparência como se pudéssemos apenas tactear uma janela, por momentos perco o pé, mas depois de uma natação brusca de sobrevivência reconheço o outro sem abandonar as perguntas, sempre me pareceu que as mulheres nadam com mais agilidade do que eu, de qualquer modo, é impossível construir uma prancha de salvação, estamos sempre dentro de água. Tinha o balanço felino e um olhar de cordeiro, uma fera indecifrável, a voz vinha do outro lado do muro, um muro impossível de saltar, tentá-lo desencoraja qualquer miúdo experiente em vedações. De onde vem a voz que se mistura com a tangência da cor? Encontrei uma pista nos diários de Canetti, "Die Stimmen der Menschen sind Gottes Brot", as vozes dos homens são o pão de Deus.

4 de jan. de 2023

 

Desci a rua com o sol de frente, um lago amarelo engolia tudo o que lhe tentava resistir. Sem horizonte que me guiasse, movia as pernas sem a convicção que mudava de lugar. Os prédios mais próximos pareciam de papel, iam ficando em fanicos conforme a rua se afunilava, apenas umas pombas de cerâmica que adornam a cumeeira de um telhado saiam em brasa da fornalha que devorava a rua. Por momentos pareceu-me insensato caminhar nesta direcção, não conseguia distinguir se era a geada ou o sol que me queimava os dedos. Dei dois passos para o lado e a calçada largou a pele que a enlouquecia, tal como quando fecho os olhos a fina membrana das pálpebras se torna num vermelho vivo, colado a mim como um inferno privado. Acreditava que a rua desembocava na praça, mas a sombra terminou e a grande esfera voltou a deixar o ar espesso como um cobertor. Só conseguia ver dois passos à frente, com a mão a proteger-me do dia que picava. O hábito é mais forte que uma parelha de cavalos, nada se separava de modo tão exuberante como este dia, uma boca arreganhada cheia de dentes de marfim, no entanto, enquanto o sol se multiplicava em pequenos incêndios pelas montras e vidros da cidade, passavam por mim, dourados, semelhantes a heróis da antiguidade, rostos aborrecidos e acabrunhados, abriam as portas do negócio como quem cai numa armadilha.

2 de jan. de 2023

 

Era suposto terem definhado, se o inverno fosse rigoroso ficariam tesas no parapeito, mas maníacas como são, apesar de só as mais valentes cá andarem, continuam a atravessar fronteiras transparentes, enquanto se debatem com o ilícito. Não chateiam ninguém neste período, teimam em escapar à probabilidade, testemunhas de um espaço sem uso nem recurso. Vivem do que muda de posição, limpam-se de tudo o que é sem mancha para se besuntarem no que sobeja quando o espírito recua. Os seus caminhos desembocam sempre num crime qualquer, tocam no mais concreto dos fantasmas que nos ocupam. Como um familiar maldito, uma longa linha de desentendimentos nos mantém num ódio que se disputa em vizinhança. Presas numa cortina, quietas, acordam num tremor para a existência, e confirmam o que Cioran disse sobre nós, é por desejo de tormenta que perseguimos o que queremos.

1 de jan. de 2023

 

O que sou para me propor ao que seja? Tenho a boca seca e um cinto a apertar-me o crânio, enquanto a água caí de um céu batido como claras em castelo, a luz peneirada e esponjosa deixa a sala lenta e caduca, calculo o que farei no ano sem saber o que se moveu para que chegasse. Estou colado ao tabuleiro, apenas as vozes passam como correntes de ar, ninguém se move, tal é o medo que a cabeça ateie como um fósforo. Aprendemos a falar para ficarmos hirtos como menires, todos se explicam, pirralhos que se desculpam para receber um doce, numa paralisia mortal. O que mudou debaixo do céu de prata? Nem um pião, nem uma saia rodada, no entanto, uma palavra podia tirar-me do sofá.