O inverno baixa o pulso dos dias e exige atenção a quem caminha pela geada. O tumulto cresce em segredo. A casa ganha uma casca forte como um carvalho, os vidros embaciados, a temperatura bondosa do perro, os estalidos do aquecedor, recebem-me como um amigo. O prédio tem o privilégio da escadaria, uma antecâmara onde me preparo para o tropeço nos outros, desço os andares como um perdigueiro mergulha o nariz numa moita, quando chego à porta da rua todas as pequenas impressões desaparecem com o vento, saio despojado, pronto a acolher o movimento da pequena cidade onde habito. Ando pelas ruas alegre como um miúdo que salta vedações. Encostada à porta do banco, uma mulher num vestido de lã branca, um nevão sobre colinas alentejanas, a face rosada fura o gelo, é uma planta sem nome com os olhos pintados de azul, uma emboscada de milagres. A pintura é uma sonda que explora o enigma da aparência como se pudéssemos apenas tactear uma janela, por momentos perco o pé, mas depois de uma natação brusca de sobrevivência reconheço o outro sem abandonar as perguntas, sempre me pareceu que as mulheres nadam com mais agilidade do que eu, de qualquer modo, é impossível construir uma prancha de salvação, estamos sempre dentro de água. Tinha o balanço felino e um olhar de cordeiro, uma fera indecifrável, a voz vinha do outro lado do muro, um muro impossível de saltar, tentá-lo desencoraja qualquer miúdo experiente em vedações. De onde vem a voz que se mistura com a tangência da cor? Encontrei uma pista nos diários de Canetti, "Die Stimmen der Menschen sind Gottes Brot", as vozes dos homens são o pão de Deus.
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