Desci a rua com o sol de frente, um lago amarelo engolia tudo o que lhe tentava resistir. Sem horizonte que me guiasse, movia as pernas sem a convicção que mudava de lugar. Os prédios mais próximos pareciam de papel, iam ficando em fanicos conforme a rua se afunilava, apenas umas pombas de cerâmica que adornam a cumeeira de um telhado saiam em brasa da fornalha que devorava a rua. Por momentos pareceu-me insensato caminhar nesta direcção, não conseguia distinguir se era a geada ou o sol que me queimava os dedos. Dei dois passos para o lado e a calçada largou a pele que a enlouquecia, tal como quando fecho os olhos a fina membrana das pálpebras se torna num vermelho vivo, colado a mim como um inferno privado. Acreditava que a rua desembocava na praça, mas a sombra terminou e a grande esfera voltou a deixar o ar espesso como um cobertor. Só conseguia ver dois passos à frente, com a mão a proteger-me do dia que picava. O hábito é mais forte que uma parelha de cavalos, nada se separava de modo tão exuberante como este dia, uma boca arreganhada cheia de dentes de marfim, no entanto, enquanto o sol se multiplicava em pequenos incêndios pelas montras e vidros da cidade, passavam por mim, dourados, semelhantes a heróis da antiguidade, rostos aborrecidos e acabrunhados, abriam as portas do negócio como quem cai numa armadilha.
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