10 de jan. de 2023

 

Sento-me na mesa mais recuada do café, na ilusão que pertenço a outro espaço e me foi dada a graça de ver a vida dos outros sem fazer parte dela, mas hoje é a penúria que me leva a considerar os gestos que fazem. Perdi a chave que abre a cortina vítrea que os deixa idênticos uns aos outros. O mundo desaparece num estalar de dedos do outro lado da alcova, uma mãe demasiado zelosa aconchega-me o cobertor à volta do pescoço, tão esmerada e caprichosa que apenas respiro se não me mexer. Devo ter tocado numa figura interdita enquanto dormia, um mostrengo de regiões desabrigadas, invejoso do meu estado de vigia, adormeceu-me num gesto veloz e irrefletido, agora, espero que um perfume me tire a cabeça da almofada. A erva está quieta como um tapete, mesmo os ramos mais altos dos pinheiros parecem pertencer a uma gravura que se ajusta à torre de silêncio de um céu uniforme. A mesa recortada pela luz tem uma toalha loura que a deixa a pairar sobre a sombra onde se apoia. Os pássaros andam longe a mendigar migalhas pelo parque, se, entretanto, o vento não sacudir a rua, voltam como um bando de miúdos para o recreio. Por agora nada converge para lado nenhum, nem os comboios abanam o prédio da dormência que o agarrou, parece aguardar que alguém chegue para que o tempo corra num ribeiro que secou.

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