Se me ponho a andar sem pensar, dou quase sempre por mim a ir de encontro a outros errantes, pergunto-me se não somos levados pelos querubins da ilusão, mensageiros perdidos que ao deixarem de saber porque vieram para este planeta se entretêm a conduzir os tolos por ruelas e jardins ao abandono. Ao reconhecerem um indeciso que joga aos dados nas bifurcações, assistem-nos com pequenos acenos, sinais incoerentes e disparatados que estimulam a nossa vontade de criar relações. A mim, que me vejo entre os mais desacertados dos colecionadores, fazem-me esquecer a musculatura mole que me envolve os ossos, e quando dou por ela estou debaixo de um pinheiro do outro lado do monte, há um contentamento inesperado em encontrar alguém que, levado pelas orelhas, se encontra sem nada melhor para fazer do que ouvir um pardal a resmungar. Os pequenos mensageiros saltam de atenção em atenção, quando alguém os abandona para se perder no seu tumulto interior, desesperam da falta de propósito e procuram de imediato outra alma predisposta a ser levada em devaneio.
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