31 de jan. de 2023

 

O quarto fechado, inconstante como uma adolescente, é uma máquina do tempo que não depende de mim para funcionar. A cortina corrida por metade empurra a noite para o canto onde estão as teias por desfazer, o céu é um prato de porcelana, a luz entra como uma espada dentro de água. Ontem, amestrada pelo cansaço, a desordem era serena, o ar ameno e abrigado, agora, tiro a custo o braço do edredão. As madrugadas não conhecem medo quando a noite é um mergulho, mas não encontro a estima com que me acolheu, é um sítio pequeno que insiste para que o abandone, despojado, pronto para depender mais do sonho do que da realidade, recebe-me disperso como uma névoa, bebe-me horas a fio e deixa-me no embaraço de quem se despe sem saber o que abandonou. Ontem era o ponto de gravidade para onde caía em desamparo, hoje um barco numa cidade por imaginar.

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