A cabeça pende facilmente em direção ao solo, o crânio é demasiado pesado, é um terreno arenoso e cede naturalmente a reflexões graves, hoje o chão é um festim para os olhos entregues ao prazer de vadiar, o vendaval voltou tudo do avesso, encontro latas e papéis pela calçada, os homens e mulheres da cidade devem ter-se encontrado num festejo ancestral, num ritual que desconheço, mas que certamente os acompanha desde a origem dos tempos, agora dormem, exaustos, um sono despojado depois do sacrifício. Levanto a cabeça, o frio pica-me a face como se entrasse num campo verdejante, o ar desenha o caminho que faz até me chegar aos pulmões, tenho o rosto sóbrio, é um barco que corta o vento, uma foice que abre um trilho no meio do mato.
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