23 de fev. de 2022

 Penso que os quarenta são uma idade delicada. Talvez porque, devido a uma continuidade de sismos de intensidade reduzida, as fundações do teatro que até aqui vivi se verem danificadas. Olho para os que se dizem certos de si, e vejo apenas afinco em não olhar para os pés quando o chão tende a desaparecer. Como se, em vez de exprimir uma convicção, fosse um desejo, por vezes mesmo, uma prece o que enunciam. O trágico no ser humano é que os seus bastidores estão à sua frente e não numa arrecadação que não viria à superfície. Os quarenta são uma idade delicada porque as dúvidas irrompem de toda a parte e a capacidade de as calar nunca foi tão forte. Sou empurrado para longe da infância enquanto penso no que pode querer dizer maturidade. No dicionário leio "pico do desenvolvimento", um disparate que apenas com a penhora da verdade e uma boa dose de remendos se torna suportável. Já o termo económico, (ao contrário do que era expetável) não me diminui as questões, mas diz mais sobre o que sinto, o empréstimo que me fizeram atingiu o vencimento. A infância permanece um fruto que, verde ou maduro, tem do seu lado não sonhar apenas com o provável. Os quarenta são uma idade delicada porque a tentação de fingir que não se vê o fim começa a ganhar a forma ridícula de um palhaço num funeral.

                                        Pode ser uma imagem a preto e branco de 1 pessoa 


Herbert Bayer
Self-Portrait
1932, printed later

21 de fev. de 2022

A tentação de fugir ao que devo fazer por falta de descanso é enorme, mas não há uma relação directa entre o cansaço e a incapacidade de escrever. Enfrento a folha mais desarmado, e a mão move-se lenta e pesada como se o mar tivesse subido demasiado. A relação com o tempo ganha um espectro diferente para o insone. O tempo que dizemos perdido deixa de ser algo que sentimos correr como areia por entre os dedos, e passa a ser como um pêndulo onde se colocaram todos os pesos da balança e se despenha no precipício, deixando-nos imóveis à superfície. Esse grande dador de possibilidades transforma-se num tirano que faz apanágio de mostrar a ausência delas. Courbet dizia aos alunos para procurarem se não havia um tom ainda mais escuro do que o que encontraram, para indicarem a sua posição no quadro e começarem a modular a partir daí. O problema do insone é que esse ponto tende a desaparecer e um tom médio, que deveria apenas servir de transição de valores, passa a impor-se demasiado. Os limites esfumam-se, explicando os encontrões e as coisas que se partem.

                              Pode ser arte

                                 Adrian Stokes
                                        Still Life: Last Eleven (No. 9)
                                        1972

19 de fev. de 2022

 A primeira noite sem dormir começa com o esforço de me recordar do que costumo fazer para chamar o sono. Na segunda noite a procura esmorece, algo no corpo já se deixou conquistar pelo tumulto, apenas uma suspeita deixa a mente inquieta, uma qualquer verdade que se encontraria impedida de alcançar o destino, uma carta perdida. Espero, sem saber o quê ou porquê, uma entrega que não virá. O corpo fica quieto num desesperado heroísmo, e o pensamento acomoda-se ao primeiro osso que lhe dão. Diz que é da lua, e deita-se junto a mim como um pássaro na boca de um gato.

17 de fev. de 2022

 Despercebido, como o cêntimo que vai ficando no bolso das calças, o inaparente passa de mão em mão. O nevoeiro é o nosso domínio, o vapor que sobe das estradas pela manhã é mais denso do que eu. Ontem ouvi uma voz no gravador, era consistente, maciça, pareceu-me que a podia tactear, trazia algo de medular do corpo que habitava. E no entanto, era apenas um fio que ascendia, fumo espesso e quente de um cigarro que se encaracolava em direcção da janela. Na face que conheço há um traço que me sossega, uma âncora junto ao precipício, a voz, quando aparece assim, é um fósforo que se acende numa parede.



15 de fev. de 2022

Um caminhante é dança que baste para quem olha. Os ombros que cedem sucessivamente enquanto os braços balançam sem grandes pressas. As pernas são tesouras nas mãos de uma experiente costureira, mas o chão é na barriga que se sente como a ondulação numa baía. O milagre inaparente é que a cabeça vagueia sem ter de pensar nisso, porém se o espírito divaga sem se preocupar com as contracções, já estas são uma sinfonia que o predispõe à reflexão. Andar é um lugar que se procura e um não-lugar que se satisfaz. Ao contrário da corrida, onde o corpo parece ter de se agarrar aos seus limites, ao andar, o suave balanço cria uma repercussão sísmica que tende a libertar-se da sua medida. O imprevisto acontece geralmente de modo benfazejo ao que caminha. Nem que seja por ter tomado a decisão de andar, alegra-se de ter saído a passos largos. E depois, há os cabelos longos que saltam sobre os ombros como crianças num trampolim. No verão, o entusiasmo dos pilares de bronze que suportam a estrutura da mulher; no inverno, o lento ondear da roupa como um manto de água onde o olhar passa num veleiro. Não sei se todos se alegram quando andam, certo é que a boa disposição é fácil de entreter. Nem que seja por isso, de quase nenhum sustento precisa o caminhante.

12 de fev. de 2022

 Há um exercício de leitura que se assemelha à observação das nuvens. No café onde costumo ir há uma empregada que é domadora de leões, outra que se dedica à observação dos astros, e um homem já com bastante idade que é funambulista. Este, chega todos os dias à mesma hora e repete os mesmos gestos, coloca os livros no canto esquerdo da mesa e pousa as canetas paralelas aos livros. Pendura o casaco nas costas da cadeira perpendicular à sua e desce para pedir o café. Vai numa linha recta sem desviar o olhar para nenhum dos lados, sobre um fio que apenas ele vê. Uma vez tentei dizer-lhe bom dia, mas não respondeu. Essa hesitação teria feito com que se despenhasse no abismo.

11 de fev. de 2022

 

No topo do monte a erva tem menos de um palmo de altura e são poucos os dias em que o vento se acalma. Uns tufos de urzes mal semeados e um molho de caniços entre o turquesa e o verde água varejam a imaginação com fábulas do sul. Os caniços e os fetos têm na minha memória um lugar privilegiado. Se por algum motivo quisesse fazer um cenário para um sonho da minha infância bastaria uma dúzia de fetos e alguns caniços, e a água apareceria por si. Na minha escola primária havia um pinhal, costumávamos fazer um caminho que passava debaixo de uma figueira e terminava junto a um regato. Há alguns anos voltei a visitar a escola, levou-me meia dúzia de passos a fazer o pequeno caminho. Creio que não foi apenas por uma questão de escala que me pareceu menor, mas, porque antes atravessava mais mundo.
Um bando de pardais em volta de um monte de lenha, cintados pelo zumbido dos carros na autoestrada. Há sempre um equilíbrio por descobrir numa paisagem que se descreve. Dez páginas não são suficientes para descrever o monte da escola da Francisca, porém duas linhas deixam o lugar aberto e o vento que não o larga também entre elas pode soprar.
 
                                   Pode ser um grande plano

9 de fev. de 2022

 

Tentar pelo menos não ficar na mesma. Se ontem o tédio me ganhou terreno, tenho hoje que reaver o passo. O tédio de estar entediado é de todos o mais inofensivo, mais prejuízo traz o que de molde antigo vem mascarado. Se me apego a algo que gostei, sem pensar porque o faço, sem nenhum motivo senão combater o enfado, triste de mim, que não soube mudar de ânimo quando o dia mudou de corpo. Seguro um manequim como se de um homem se tratasse. Consigo imaginar um egípcio com o seu espelho de bronze a ver o mundo dourado. E percebo a imobilidade da morte como caroço da vida que o envolve. Os seus cabelos untados não eram seus mas de um cavalo que os tinha fortes e aprumados. Não me visto de linho, nem conheço rituais que me tirem a mancha enfadonha da rotina.

 

                                                 Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e ao ar livre

 

 

 

 

 

 

 

8 de fev. de 2022

 Não sei que emoção se agitava nos pequenos dedos enquanto arrancava uma a uma as patas de um aranhiço. Sei que não deveria ser a beatitude infantil de que falam os pedagogos. Era capaz de odiar e estilhaçar o que sabia mais fraco que eu. O mundo era encantado, mas habitá-lo uma fonte de angústias e tensões sem grande escapatória. O jardim estendia-se a perder de vista, e sem uma palavra que o delimitasse, instigava a grande máquina do gozo a puxar, bater, esfregar, rasgar, tirar. A suspeita de omnipotência, face a um cenário colorido para seu prazer, crescia quando dois ou três companheiros desafiavam a fazer o que hesitávamos. Na altura estava longe de perceber o perigo de me abandonar a essa força acéfala, apenas a embriaguez me tomava os membros quando esborrachávamos um lagarto à pedrada, ou apanhávamos pintassilgos numa armadilha. Será que havia uma diferença substancial entre abrir uma laranja, desmontar um boneco ou arrancar as asas a uma mosca? Julgo que não. Uma febre dionisíaca levava-nos a espezinhar uns melões que ficaram por apanhar. A sua pele tenra não oferecia resistência e o cheiro doce que se libertava era uma exalação há demasiado tempo retida debaixo da terra encarnada.

 

                                 Pode ser um desenho

7 de fev. de 2022

 Durante certas conversas acontece algo caricato. Percebo subitamente que começo a dizer o que costumo dizer, que no limite converge sempre para uma trivialidade que se costuma dizer. Meio coxo, mas com a clareza suficiente para o reconhecer, tomo de forma hesitante a conversa para outro caminho. Nessa fracção de segundo, em que não sei onde estou em relação ao que digo, o vazio deve ser visível nas pregas da minha testa. Este momento de dúvida tem um poder de sucção abissal, de certo modo semelhante à corrente eléctrica, a tensão entre dois electrões separados é intolerável. No entanto, é neste momento de fractura que reconheço como a interpretação do mundo está ligada a um desejo. Vejo-me apenas por reflexo no que digo, sem me conseguir situar. Existem múltiplos modos de me perder numa conversa, o mais comum é supor que reconheço o desejo do outro, e colocar-me na mesma posição para que me reconheça como um ser desejante.

                                    Pode ser uma imagem de 1 pessoa e texto que diz "I'm M DESPERATE" 

                                      
Gillian Wearing
‘I’m desperate’
1992–3

 

5 de fev. de 2022

 Cheguei demasiado cedo. Em vez de me enfiar na livraria, fui até ao largo e fiquei a olhar para a fachada de S. Maria. Há bastante tempo que não entro numa igreja. Ao atravessar o largo, o pensamento de que o dono do café acharia que ia rezar, surgiu como uma malva silvestre que se agarra às calças. É miserável pensar no que os outros pensam. De certo modo, este pensamento, é já o que os "outros" pensam, faz parte dessa trama pobre e covarde que flutua pelas valas à espera de uma cabeça onde ecoar. A igreja apareceu-me primeiro como um espaço desencantado, deslocado para fora da vida dos homens. Um banco de jardim, que no meio das restruturações da cidade, ficou debaixo de um viaduto. Claro que ainda está no largo principal, mas isso é apenas uma aparência. Tem a mesma ternura que a mulher da pastelaria, da qual a voz tem o timbre dos vinte anos, mas cuja beleza requer um trabalho mais delicado da imaginação. No interior as pinturas sobrepõem-se e o corpo parece ganhar mão sobre a palavra. De uma irradiação súbita, como uma perna que aparece sob a saia. Somos acolhidos pelo mistério da encarnação. Domesticadas pelo tempo, escuras, apenas as da Josefa parecem acabadas de pintar. Junto à janela, são como um lume brando que ameniza a temperatura.

 

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3 de fev. de 2022

 Com o indicador espetado na areia fazia círculos uns sobre os outros. Dizia-me, por que raio, se um homem se perde num bosque ao tentar andar a direito acaba por fazer um círculo? Dizem que é uma forma perfeita; parece-me de um acirrado narcisismo. Aqui na rua repetem-se as mesmas palavras, como se quisessem fechar o cerco a quem se recusa a trincar o rabo como a marmota. Mas nisto não parece haver começo nem fim. Havia um indício de que a maior parte dos meus dias tinham sido vividos um palmo ao lado de onde julgava estar. A minha imaginação trabalhava mais na reprodução do que na exploração do desconhecido. Aragon diz da imaginação divina que trabalha afincadamente nas variações ínfimas e discordantes. A minha, na busca do entusiasmo, queria fazer prova de me conseguir servir sempre o mesmo prato com um efeito diferente. O que procuro ver agora, que na altura me ia parecer uma alucinação, é de que forma o entusiasmo pode não ser um encontro com o real. Mas ao revés, servir-se deste, como de um pequeno ponto de apoio, para construir o seu teatro.




Woman with Large Plate (Francesca Woodman), Via dei Coronari, 1978

2 de fev. de 2022

 Sonhei que passeava entre carvalhos e sobreiros com uma amiga de longa data. Nada de constrangedor nesta deambulação, para além do esforço imenso que tive para lhe tentar dizer o perfume de uma flor que não me lembrava o nome. Este esquecimento roubava-me quase tudo do pequeno botão. E o embaraço não me deixava sair desse espaço vazio que tentava preencher com outros frutos e aromas. Limão com canela... era mais doce, tinha qualquer coisa de hortelã e era aveludado como um pêssego. Estava destinado ao fracasso. Uma palavra mantinha o pequeno devaneio em suspenso ao seu redor. Era levado pelo erro numa errância que desconhecia o fim. Comecei a gaguejar por ter percebido que uma palavra em falta era uma pequena amputação do mundo.

1 de fev. de 2022

 Era para sair cedo no encalço dos passos de ontem. Mas decidi alterar a rotina, e deixar-me ficar por casa. O escritório é um campo minado para o meu trabalho, que apenas precisa de uma folha e uma caneta, talvez por isso me tenha habituado a fugir para o café. Aí as distracções são apenas as que cabem numa mochila. E depois há os passantes, uma pessoa que anda é um ser quase alado. Ver alguma coisa que me suscita um estado salutar oferece-me uma mão cheia de sensações diversas. Em casa começo quase sempre por uma abstracção. Hoje descobri que Freud diz, na "psicopatologia da vida quotidiana", que se começou a interessar pela sua infância com quarenta e três anos, precisamente a minha idade, idade em que comecei a ler Freud e a pensar na minha infância. O que equivale a um cheesecake para a minha neurose. Talvez devesse ter saído de casa e ver os que caminham. As rotinas antecedem-me, entro nelas vindo de outras, formam-se por um padrão de inclinações que não consigo alcançar a origem. Deste ponto de vista tudo o que é possibilidade de encontro se reduz, e a cidade inteira fica mais baça. Puxo demasiado a manta sobre mim e fica à mostra o cadáver aos pés da cama. Delacroix dizia que um desenhador devia ser capaz de esboçar um homem que cai de um telhado. Começo por algo mais simples, vou sair e tentar descrever um homem que anda.