8 de fev. de 2022

 Não sei que emoção se agitava nos pequenos dedos enquanto arrancava uma a uma as patas de um aranhiço. Sei que não deveria ser a beatitude infantil de que falam os pedagogos. Era capaz de odiar e estilhaçar o que sabia mais fraco que eu. O mundo era encantado, mas habitá-lo uma fonte de angústias e tensões sem grande escapatória. O jardim estendia-se a perder de vista, e sem uma palavra que o delimitasse, instigava a grande máquina do gozo a puxar, bater, esfregar, rasgar, tirar. A suspeita de omnipotência, face a um cenário colorido para seu prazer, crescia quando dois ou três companheiros desafiavam a fazer o que hesitávamos. Na altura estava longe de perceber o perigo de me abandonar a essa força acéfala, apenas a embriaguez me tomava os membros quando esborrachávamos um lagarto à pedrada, ou apanhávamos pintassilgos numa armadilha. Será que havia uma diferença substancial entre abrir uma laranja, desmontar um boneco ou arrancar as asas a uma mosca? Julgo que não. Uma febre dionisíaca levava-nos a espezinhar uns melões que ficaram por apanhar. A sua pele tenra não oferecia resistência e o cheiro doce que se libertava era uma exalação há demasiado tempo retida debaixo da terra encarnada.

 

                                 Pode ser um desenho

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