Durante certas conversas acontece algo caricato. Percebo subitamente que começo a dizer o que costumo dizer, que no limite converge sempre para uma trivialidade que se costuma dizer. Meio coxo, mas com a clareza suficiente para o reconhecer, tomo de forma hesitante a conversa para outro caminho. Nessa fracção de segundo, em que não sei onde estou em relação ao que digo, o vazio deve ser visível nas pregas da minha testa. Este momento de dúvida tem um poder de sucção abissal, de certo modo semelhante à corrente eléctrica, a tensão entre dois electrões separados é intolerável. No entanto, é neste momento de fractura que reconheço como a interpretação do mundo está ligada a um desejo. Vejo-me apenas por reflexo no que digo, sem me conseguir situar. Existem múltiplos modos de me perder numa conversa, o mais comum é supor que reconheço o desejo do outro, e colocar-me na mesma posição para que me reconheça como um ser desejante.
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