Cheguei demasiado cedo. Em vez de me enfiar na livraria, fui até ao largo e fiquei a olhar para a fachada de S. Maria. Há bastante tempo que não entro numa igreja. Ao atravessar o largo, o pensamento de que o dono do café acharia que ia rezar, surgiu como uma malva silvestre que se agarra às calças. É miserável pensar no que os outros pensam. De certo modo, este pensamento, é já o que os "outros" pensam, faz parte dessa trama pobre e covarde que flutua pelas valas à espera de uma cabeça onde ecoar. A igreja apareceu-me primeiro como um espaço desencantado, deslocado para fora da vida dos homens. Um banco de jardim, que no meio das restruturações da cidade, ficou debaixo de um viaduto. Claro que ainda está no largo principal, mas isso é apenas uma aparência. Tem a mesma ternura que a mulher da pastelaria, da qual a voz tem o timbre dos vinte anos, mas cuja beleza requer um trabalho mais delicado da imaginação. No interior as pinturas sobrepõem-se e o corpo parece ganhar mão sobre a palavra. De uma irradiação súbita, como uma perna que aparece sob a saia. Somos acolhidos pelo mistério da encarnação. Domesticadas pelo tempo, escuras, apenas as da Josefa parecem acabadas de pintar. Junto à janela, são como um lume brando que ameniza a temperatura.

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