Com o indicador espetado na areia fazia círculos uns sobre os outros. Dizia-me, por que raio, se um homem se perde num bosque ao tentar andar a direito acaba por fazer um círculo? Dizem que é uma forma perfeita; parece-me de um acirrado narcisismo. Aqui na rua repetem-se as mesmas palavras, como se quisessem fechar o cerco a quem se recusa a trincar o rabo como a marmota. Mas nisto não parece haver começo nem fim. Havia um indício de que a maior parte dos meus dias tinham sido vividos um palmo ao lado de onde julgava estar. A minha imaginação trabalhava mais na reprodução do que na exploração do desconhecido. Aragon diz da imaginação divina que trabalha afincadamente nas variações ínfimas e discordantes. A minha, na busca do entusiasmo, queria fazer prova de me conseguir servir sempre o mesmo prato com um efeito diferente. O que procuro ver agora, que na altura me ia parecer uma alucinação, é de que forma o entusiasmo pode não ser um encontro com o real. Mas ao revés, servir-se deste, como de um pequeno ponto de apoio, para construir o seu teatro.
Woman with Large Plate (Francesca Woodman), Via dei Coronari, 1978
Nenhum comentário:
Postar um comentário