1 de fev. de 2022

 Era para sair cedo no encalço dos passos de ontem. Mas decidi alterar a rotina, e deixar-me ficar por casa. O escritório é um campo minado para o meu trabalho, que apenas precisa de uma folha e uma caneta, talvez por isso me tenha habituado a fugir para o café. Aí as distracções são apenas as que cabem numa mochila. E depois há os passantes, uma pessoa que anda é um ser quase alado. Ver alguma coisa que me suscita um estado salutar oferece-me uma mão cheia de sensações diversas. Em casa começo quase sempre por uma abstracção. Hoje descobri que Freud diz, na "psicopatologia da vida quotidiana", que se começou a interessar pela sua infância com quarenta e três anos, precisamente a minha idade, idade em que comecei a ler Freud e a pensar na minha infância. O que equivale a um cheesecake para a minha neurose. Talvez devesse ter saído de casa e ver os que caminham. As rotinas antecedem-me, entro nelas vindo de outras, formam-se por um padrão de inclinações que não consigo alcançar a origem. Deste ponto de vista tudo o que é possibilidade de encontro se reduz, e a cidade inteira fica mais baça. Puxo demasiado a manta sobre mim e fica à mostra o cadáver aos pés da cama. Delacroix dizia que um desenhador devia ser capaz de esboçar um homem que cai de um telhado. Começo por algo mais simples, vou sair e tentar descrever um homem que anda.





Nenhum comentário:

Postar um comentário