31 de jan. de 2022

 Chego ao café sempre meia hora antes das lojas abrirem. São duas vidas diversas, a quietude quase estática, onde os movimentos parecem ser apenas a preparação de um palco, e o frenesi do comércio que irrompe como se gerado do nada, cheio de desastre e tribulação. Anteriormente tudo é pensamento coagulado, ao ponto de passar por algo natural, da calçada aos vasos ornamentais, mesmo o manto cinza é como um tecto artificial. Depois surgem as faces, nas quais o enigma sussurra constantemente. Faces que mostram sempre, principalmente quando escondem, a liberdade que abdicam forçada ou voluntariamente. O pequeno sorriso que cobiça frente à conspiração inocente que o seduz, é um resumo prosaico de uma história delicada. Se o sol alegra a vendedora de meias, cosendo novas esperanças ao seu horizonte cinzento, o seu corpo alheia-se do crédito triste e revela um excesso impossível de delimitar. Tudo sobra, mas para conter a desmesura tem de vender três pares pelo preço de um.

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