15 de fev. de 2022

Um caminhante é dança que baste para quem olha. Os ombros que cedem sucessivamente enquanto os braços balançam sem grandes pressas. As pernas são tesouras nas mãos de uma experiente costureira, mas o chão é na barriga que se sente como a ondulação numa baía. O milagre inaparente é que a cabeça vagueia sem ter de pensar nisso, porém se o espírito divaga sem se preocupar com as contracções, já estas são uma sinfonia que o predispõe à reflexão. Andar é um lugar que se procura e um não-lugar que se satisfaz. Ao contrário da corrida, onde o corpo parece ter de se agarrar aos seus limites, ao andar, o suave balanço cria uma repercussão sísmica que tende a libertar-se da sua medida. O imprevisto acontece geralmente de modo benfazejo ao que caminha. Nem que seja por ter tomado a decisão de andar, alegra-se de ter saído a passos largos. E depois, há os cabelos longos que saltam sobre os ombros como crianças num trampolim. No verão, o entusiasmo dos pilares de bronze que suportam a estrutura da mulher; no inverno, o lento ondear da roupa como um manto de água onde o olhar passa num veleiro. Não sei se todos se alegram quando andam, certo é que a boa disposição é fácil de entreter. Nem que seja por isso, de quase nenhum sustento precisa o caminhante.

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