Penso que os quarenta são uma idade delicada. Talvez porque, devido a uma continuidade de sismos de intensidade reduzida, as fundações do teatro que até aqui vivi se verem danificadas. Olho para os que se dizem certos de si, e vejo apenas afinco em não olhar para os pés quando o chão tende a desaparecer. Como se, em vez de exprimir uma convicção, fosse um desejo, por vezes mesmo, uma prece o que enunciam. O trágico no ser humano é que os seus bastidores estão à sua frente e não numa arrecadação que não viria à superfície. Os quarenta são uma idade delicada porque as dúvidas irrompem de toda a parte e a capacidade de as calar nunca foi tão forte. Sou empurrado para longe da infância enquanto penso no que pode querer dizer maturidade. No dicionário leio "pico do desenvolvimento", um disparate que apenas com a penhora da verdade e uma boa dose de remendos se torna suportável. Já o termo económico, (ao contrário do que era expetável) não me diminui as questões, mas diz mais sobre o que sinto, o empréstimo que me fizeram atingiu o vencimento. A infância permanece um fruto que, verde ou maduro, tem do seu lado não sonhar apenas com o provável. Os quarenta são uma idade delicada porque a tentação de fingir que não se vê o fim começa a ganhar a forma ridícula de um palhaço num funeral.
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