21 de fev. de 2022

A tentação de fugir ao que devo fazer por falta de descanso é enorme, mas não há uma relação directa entre o cansaço e a incapacidade de escrever. Enfrento a folha mais desarmado, e a mão move-se lenta e pesada como se o mar tivesse subido demasiado. A relação com o tempo ganha um espectro diferente para o insone. O tempo que dizemos perdido deixa de ser algo que sentimos correr como areia por entre os dedos, e passa a ser como um pêndulo onde se colocaram todos os pesos da balança e se despenha no precipício, deixando-nos imóveis à superfície. Esse grande dador de possibilidades transforma-se num tirano que faz apanágio de mostrar a ausência delas. Courbet dizia aos alunos para procurarem se não havia um tom ainda mais escuro do que o que encontraram, para indicarem a sua posição no quadro e começarem a modular a partir daí. O problema do insone é que esse ponto tende a desaparecer e um tom médio, que deveria apenas servir de transição de valores, passa a impor-se demasiado. Os limites esfumam-se, explicando os encontrões e as coisas que se partem.

                              Pode ser arte

                                 Adrian Stokes
                                        Still Life: Last Eleven (No. 9)
                                        1972

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