Andei bastante tempo com um sentimento de revolta para com os eucaliptos, sem nunca me lembrar dos momentos felizes que tive entre essas árvores. Era para o meio delas que o meu pai fugia. Nos dias bons agarrava em mim e nos cães, e levava-nos com ele. O eucaliptal, na sua monotonia obsessiva, reiterava numa pobreza de meios a vontade insaciável de verticalidade. O solo amarelado era seco e arenoso. Cobras, coelhos e lagartos, a fauna que por vezes eclodia e me fazia sinal que a vida se esconde no deserto. Para os ver tinha de semicerrar os olhos como fazem os pintores, com sorte uma cobra atravessava o caminho, ou o estalar das cascas secas denunciavam um coelho menos cauteloso. O eucalipto é uma árvore de extremos, impiedosa, criada em ambientes violentos é uma raiz de fogo, chegou silente no porão das naus até rebentar como fogo de artifício pelo país. Não ia demorar muito até a sua obstinação chamar a atenção dos avarentos. De qualquer modo, era um sítio encantado quando era pequeno. O cheiro agudo, com traços de cânfora e menta, extendia-se como flechas pelo ar limpo e o meu peito parecia duplicar de tamanho, corria como um desvairado, passado pouco tempo já era eu que exalava o cheiro alimonado, tantas foram as folhas que amassara com as mãos. As silvas limitavam o prazer de tactear, eram a única coisa com força suficiente para rebentar em condições tão adversas. Eternas inimigas do meu pai, apareciam em todo o lado. Ele, armado de uma catana, cortava diligente, elas, teimosas como o demónio, bastava voltarmos para casa para reconquistarem o terreno ganho. Havia uma beleza fera naquilo tudo. Também o eucalipto é um bicho bravio, rebenta num abrir de mãos e debaixo da terra é a mesma fúria, o meu pai dizia que as raízes atravessavam os campos à procura de água. Para mim, a aridez era habitada de possibilidades sem fim, o seu aparente abandono, a presença de uma alteridade que exibe a sua fractura como um diadema.
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