3 de mar. de 2022

 Raramente consigo escrever quando estou demasiado alegre, a não ser que seja uma alegria descoberta pela escrita. Como se recusasse o que não dependesse do seu esforço, o que é um logro, pois, tantas vezes, de um vocábulo que anda em volta da língua, nasce qualquer coisa que não se espera. Portanto, deambular sem finalidade é sujeitar-me a que brote uma palavra boa no coração, como diz o salmo. Por vezes, parece que as ideias são demasiado densas e a cabeça demasiado leve. A custo as vejo vir à superfície e uma mínima distração deixa-me com a sensação de as ver afundar numa profundidade longínqua. Assim, uma página de lamúrias precede muitas vezes uma palavra que me mete num carril diverso e é uma alegria perder-me onde não conheço. Lembro-me do escuro ser um fascínio e uma protecção, debaixo da cama, das escadas, dos móveis, na despensa, lugares onde desaparecia no seio da sombra, e me deitava na intermitência do mundo.

                                     https://www.tate.org.uk/art/images/work/T/T12/T12882_9.jpg 

 
David Hockney 
Study for Doll Boy 
1960

 

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