Tento
não ir de imediato ao encontro do tráfego que entra pelas janelas. Sem
cair no silêncio enaltecido pelos poetas, que me parece um bloco de
granito, estranho e impenetrável, fico deitado com o barulho suave da
máquina de lavar. Tempos houve em que me escondia dentro do roupeiro,
talvez fugisse do espaço sem janelas das coisas acabadas. Encontrava um
mundo sonoro, fantasmagórico, ouvia-me respirar, um barulho do estômago
sobressaltava-me como uma porta que se abre de repente. O escuro acabava
por se ajustar como uma máscara, nessa altura ficava estranhamente
encostado ao que pensava. A maior parte das vezes levava um boneco de
que gostava e tolerava mais tempo o desaparecimento. O boneco era um fio
que me ajudava a percorrer o labirinto, ao encontro da fábula, sempre
incompleta, que esperava ser narrada. Neste universo não havia horizonte
para além do que me corria pela cabeça. A realidade oscilante das
coisas era sensível como água que evapora. Acreditava conseguir
atravessar a sombra armado apenas de uma peça do castelo que construíra.
O roupeiro do quarto dos meus pais era embutido na parede, era grande o
suficiente para cinco miúdos como eu. Tinha esconderijos por toda a
casa, como a roupa de um explorador tem bolsos onde guardar instrumentos
para atravessar a selva. O quarto dos meus pais não era o lugar onde
procurava aconchego, era um lugar incerto e problemático. Um lugar onde
entrava como um intruso. No roupeiro o cheiro macio e doce da roupa
lavada equilibrava o silêncio, e eu entrava nesse silêncio como num lago
com os meus bonecos por boia de salvação.
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