5 de mar. de 2022

Tento não ir de imediato ao encontro do tráfego que entra pelas janelas. Sem cair no silêncio enaltecido pelos poetas, que me parece um bloco de granito, estranho e impenetrável, fico deitado com o barulho suave da máquina de lavar. Tempos houve em que me escondia dentro do roupeiro, talvez fugisse do espaço sem janelas das coisas acabadas. Encontrava um mundo sonoro, fantasmagórico, ouvia-me respirar, um barulho do estômago sobressaltava-me como uma porta que se abre de repente. O escuro acabava por se ajustar como uma máscara, nessa altura ficava estranhamente encostado ao que pensava. A maior parte das vezes levava um boneco de que gostava e tolerava mais tempo o desaparecimento. O boneco era um fio que me ajudava a percorrer o labirinto, ao encontro da fábula, sempre incompleta, que esperava ser narrada. Neste universo não havia horizonte para além do que me corria pela cabeça. A realidade oscilante das coisas era sensível como água que evapora. Acreditava conseguir atravessar a sombra armado apenas de uma peça do castelo que construíra. O roupeiro do quarto dos meus pais era embutido na parede, era grande o suficiente para cinco miúdos como eu. Tinha esconderijos por toda a casa, como a roupa de um explorador tem bolsos onde guardar instrumentos para atravessar a selva. O quarto dos meus pais não era o lugar onde procurava aconchego, era um lugar incerto e problemático. Um lugar onde entrava como um intruso. No roupeiro o cheiro macio e doce da roupa lavada equilibrava o silêncio, e eu entrava nesse silêncio como num lago com os meus bonecos por boia de salvação.

                    

Nenhum comentário:

Postar um comentário