28 de dez. de 2022

 

Perdi a cabeça. Não de um modo jubiloso, como quando entrava na noite a descoberto e virava os objectos do avesso, nesses tempos, era eu, com gulodice, que a entregava numa bandeja. Desta vez, tudo aconteceu de modo imperceptível, sem saber onde a pusera ou que guilhotina a amputara. Tinha a mania de andar às escuras pela casa, agora, não me atrevia a levantar sem acender a luz, tal era o medo de lhe pôr os pés em cima. Podia ter acordado sem ela, um acidente enquanto dormia, sei de casos que acordam paralíticos sem saber por quê. Os vizinhos, por modéstia, dizem-me sempre - olá, como vai? - como se nada se tivesse passado, têm uma rotina rigorosa, não se ocupam com ninharias destas. A casa estava limpa de espelhos. Foi um caminho longo até este despojamento. A renúncia do que me estagna é uma obsessão tardia e inconstante, é a minha única virtude, instável e hesitante. Os espelhos mutilam o mundo. Quando os olhava via apenas um rosto, tudo o resto se tornava uma ondulação circular à sua volta. Para olhar um espelho sem sentir esse corte frio e cirúrgico teria de ter o espírito guerreiro dos que conhecem os poderes encantatórios da imagem. Mas as imagens que me rodeavam eram pobres como a conversa de café, cheias de trejeitos que fortalecem o estereótipo. Queria ser um tipo consequente, não ia criticar o cão por enfiar o focinho no lixo e ir-me olhar ao espelho quando chegasse a casa. O meu reflexo estava por todo o lado, de um modo vago e dissimulado, os espelhos, devido à minha fraca constituição, davam-me a ilusão de uma forma adquirida. Agora que não os tenho posso pensar no impulso que me leva até eles, como uma identidade ganha à partida, impulso que me teria devorado, não fossem as interrupções, a timidez e reclusão. O que me vale é que não pensamos com a cabeça, por isso continuo as minhas divagações sem a interrupção desse apetrecho que julga poder viver separado do corpo, no seu enorme acervo de pormenores há uma exaltação exagerada que a deixa na soberba de o criador ter perdido mais tempo consigo do que com o resto do corpo. Salta fora do colarinho como um gladíolo com as suas múltiplas caras. Não admira que tanta gente se agarre a ela com unhas e dentes, o que fariam se acordassem sem o belo emblema? Estava perdido, os homens reconhecem-se pela cabeça. E eu era apenas uma grande corrente de ar.

26 de dez. de 2022

 

Estamos presos no café, a chuva desaba sem piedade, num crescendo, um transe que passa pelas gotas como electricidade, penso num animal que se enamora da febre da corrida, e assim fica, até enlouquecer ou o corpo dar de si. Um regato faz da calçada um cenário quase vivo, reluzente e ondulante. No vidro do café vejo o reflexo dos funcionários do outro lado do balcão, movem-se como espectros sobre um pano de água, os céus escuros são um celeiro cheio, sem outro desejo senão despejar o ouro diáfano que confunde as qualidades do que me parecia sólido. Fixo a água a correr, num serpentear interminável, mansa e meiga como uma caixa de música, o café está quente e agitado, olho para o pequeno regato que varre as pedras num tom cristalino, perco-me no seu soluçar, um encadeamento de pequenos nadas imprecisos, bebem do ar a cinza e da pedra a palidez, mas de súbito, um ritmo de tambores junta-se à melodia que me encantava, sei que se irá calar, senão engole a cidade de uma vez, temo tornar-me permeável como se tivesse embriagado pelo hasch, as águas sobem de um poço que desconhecia, embebem-me a roupa e as ideias, até perder tudo o que me distingue e desaparecer na corrente. Perto do almoço o sol pôs fim à divagação, vagar e errar num regato é fácil de tragar, mas o mar é uma cama demasiado larga para dormir sossegado, talvez por isso seja tão difícil falar dele sem dizer trivialidades.

23 de dez. de 2022

 

Quando cheguei a casa tinha um cão sentado à porta. Aproximei-me sem medo, sei que cheiram o que sentimos, como se o espírito andasse à nossa frente ao sabor do vento. Assim que lhe cheguei perto, arreganhou o focinho e mostrou-me uma fileira de dentes notável, dei um passo atrás e fiquei a olhar para ele. Não pensei de imediato na maldade do animal, mas no que seria que o deixava assim, nervoso e agressivo. Estava calmo, não me sentia mal, tinha de tentar entrar, era noite, e não estava preparado para o frio que ia cair. Se fosse um homem desarmado, onde o medo não arranja poiso, dos que olham para um bicho e o lêem de imediato, que sentem a constituição das coisas como quem sente o peso do casaco que leva aos ombros, um caminhante que nomeia as plantas como quem as cumprimenta, mas sinto o meu desastre com demasiado vigor, e este entrave deixa-me encostado ao lado mais ríspido das coisas. Talvez fosse isso, este bicho estava aqui para me impedir de entrar onde me acomodava a um romantismo estéril e inconsequente. Olhei para ele sem o desejo de passar por ele, pareceu-me pequeno e afável, voltei a aproximar-me, desta vez ladrou-me, como se fosse a última vez que me avisava. Tinha cometido o erro do costume, vi no que me aparecia à frente apenas uma vontade de superar o meu fracasso. Se era covarde o suficiente para passar, mais valia ir para outro lado, mas não havia outro lado para ir. Sentei-me no passeio, e o grande guardião veio inesperadamente sentar-se no meu colo.

22 de dez. de 2022

 

Quando acordei as mais vivas eram as gaivotas, cortavam a janela com diagonais rápidas como uma pincelada. Têm um voo sóbrio, a carantonha que mostram quando pousam no telhado deixa antever que não são para brincadeiras. Certo é que já as vi esfrangalhar um pombo, mas nunca gracejar umas com as outras. De vigia nos altos postos, não baixam a guarda com facilidade, talvez por terem de lidar com a rispidez dos mares, por se perderem na raiz dos ventos. Nem todos têm de ser gaiteiros no mundo das aves, porém, rio-me do desafio com que me olham, podem vazar-me um olho, mas falta-lhes a majestade das rapinantes, não as consigo levar a sério, são arruaceiras, fazem demasiado espalhafato para as ver com a altivez que parecem exigir. Mas foram elas que me arrancaram da cama, os guinchos salgavam o quarto ainda às escuras e quando abri a janela o voo raptou-me da dormência em que me encontrava.

18 de dez. de 2022

 

Ao primeiro olhar parecem desengonçados, movimentos rectos e quebrados, como se tivessem as ancas fora do sítio. Erguem a cabeça de modo postiço, quase arrogante, indiferentes, uma mangueira que se desenrola, um pescoço tão longo requer um trabalho de funambulista para se manter direito. O ar à sua volta parece da espessura da água, quando voam lembram a ondulação amistosa de uma lagoa. Não são presunçosos apesar da nobreza distintiva, são belos e apalermados, uma interrupção brusca da banalidade. Têm a graça do desequilíbrio, sem par em nada do que os rodeia, recortados do décor como um traço de batom sobre uma fotografia. Provavelmente criados num gaguejo do criador, entre mundos, quando estava farto de se repetir, talvez por isso estejam excluídos da aparente justiça distributiva, escapam ao equilíbrio por todos os lados, frágeis e extravagantes, uma graça e um malogro, bizarros para o resto da fauna, só lhes resta andarem juntos, um sozinho é o inferno desmascarado, chama sobre si todos os instintos retorcidos, um tal emblema de alteridade serve de expiação aos dentes do predador, fugidos do outro lado do tempo, uma flamma que se escapou ao éden.

17 de dez. de 2022

 

Endireito-me devagar, sem ligar aparelhos e outras máquinas de sobressaltos, não me quero tornar um cavalo assustado, apesar de me seduzir o frenesi. Não tenho à mão nada que me acomode à temperatura ambiente, tenho uma guitarra, também ela solta e desafinada, estico-lhe as cordas para encher a sala com uns acordes, qualquer coisa que se intrometa no vazio que faz um chinfrim insuportável, que descubra o que lhe falta, que invente o que lhe falta, porque a angústia é demasiado prestável, está sempre aí, quieta, à espera que não me consiga rir, e nunca mais acaba, se lhe der atenção engole o espaço inteiro. Mais vale não falar do que me preocupa. Um cavalo bravo é belo de ver a correr nos montes, não de ter aos coices dentro do quarto. Confio-me a uma mão-cheia de imagens que tenho na parede como quem se confia a uma tradução de uma língua que lhe pulsa nas orelhas. Um pássaro amarelo, sobre uma sombra estilhaçada entre duas linhas cinza, parece ter atravessado um vidro, ileso como se saísse do ovo para os céus, sem ter de aprender a voar. Aprender? Dizemos nós, para marcar essa passagem do ninho para a vertigem, mas não o soube sempre? Desde o voltear incessante no ovo, amarelo como o sol, dádiva incalculável, um pescoço de cavalo degolado, dizem os hindus, desde esse rodopio, um pulsar, sem centro, destinado a ser fuga, uma flecha sem retorno. Envolto num plasma transparente de vitaminas, uma bolsa amarela onde duas silabas vibram, voar.

16 de dez. de 2022

 

Estou convalescente, como se saísse da bruma num cavalo ensonado. Nunca fui muito empolgado com o ser valente, esforcei-me por não ser covarde. Hoje, para ser valente, tenho de aproveitar bem os deslizes e os balanços, sem me enlear numa atenção desmedida do que faço. Os terrenos ensopados cheiram a ferro e enxofre, são um caldo acastanhado de putrefação, vejo-os da estrada onde passo de carro. Enterrava os pés na lama com prazer, não fosse estar a arribar de uma maleita e não querer andar para trás. Também estou alagado, longe da colina onde me encostava sem molhar o rabo, é normal que o fogo custe a pegar. Talvez possa chegar ao lume pela lama, essa aguada maldita. A língua tinge as coisas mais do que a tinta, e arrastar alguém pela lama é uma injúria que denigre a nobre canja de minérios. A terra enternecida, mole, adormecida sob o arrotar excessivo das águas, é um espelho baço de um céu convulso, bruto como um romântico que degola o que lhe aparece com o seu sentimento de sublime.

12 de dez. de 2022

 

Talvez seja da eletricidade, se deixar a mão a dois centímetros do braço consigo ver os pêlos a porem-se de pé. O vento sopra como se quisesse limpar as ruas de uma apatia constrangedora. Se for da eletricidade consigo perceber a vontade de dar cotoveladas aos que se atravessam no caminho, tenho Macbeth a sussurrar-me, mais vale enfurecer o coração do que adormecê-lo. A cabeça pulsa ao seu próprio ritmo quando a cefaleia se intromete, perde o rastro do animal que caça. Seja como for, o melhor é sair. O vento volta tudo do avesso, o paracetamol é meigo, com vagar o sangue fica menos arrepiado. A pedra lavada espelha o branco das paredes enquanto a água corre apressada por encontrar onde desapareça, talvez descubra o que perseguia, se me lembrar. As biqueiras cantam nas poças, o vento assobia nos telhados, o mau tempo tem o seu modo de me acompanhar. A memória canta mais do que mostra, é com uma melodia que aponta para qualquer lado. Mostrei o dedo ferido como se fosse um talismã, um cartão de membro, fecho o alçapão, serve-me de pouco contentar-me com cantigas de chuveiro. Não fosse a porosidade, este poço onde o zumbido dos motores ecoa e o céu se espelha. Se conseguir acompanhar a alegria rítmica da chuva estou safo.

8 de dez. de 2022

 

Entre papéis amontoados, a língua muda, apesar da chuva copiosa, se fosse um órgão como os outros não pararia, pelo menos não assim, como se morresse de tantas mortes diferentes, o coração incansável na labuta muscular, mas a língua, que Rosenzweig dizia ser mais que o sangue, quieta num túmulo húmido com pilares de marfim. Do outro lado do vidro os ramos silvam ao vento, a terra desperta pesada sob a pegada celeste. Deste lado o desacordo, um corpo que se move obstinadamente, longe dos sentidos colhidos ao acaso.

6 de dez. de 2022

 

O céu, um tecto, cinza e inerte sobre o delírio, mais baixo do que o costume, quase um abrigo, um pedaço de tinta estalada, inquietante, sempre manchado por uma porcaria qualquer, esse tecto sobre o delírio, um tecto falso, vazio, sem projector que o enfeite e me distraia da possibilidade de derrocada. Um sulco, como uma prega num vestido, varando-o de norte a sul, não me deixa desviar os olhos, uma cortina. Delirar é quando o arado se escapa ao sulco onde corria, diz o dicionário, que desta vez faz de pirómano em vez de polícia, o que sai fora da lira. O céu, uma caixa de ressonância, rasgado por um sulco, uma lira, dois cornos tensos sobre o vazio, nenhum dedo para o tocar.

4 de dez. de 2022

 

A constipação macera-me o corpo, este, vivia numa sobriedade precária, agora espera alguma vitalidade enquanto plana numa indecisão entorpecida. Procuro-a nas coisas próximas, mas o meu cão dorme e nenhuma amazona atravessa a rua num passo desenvolto. Ficar aninhado num canto é construir uma cama de memórias que me irão atraiçoar, os convalescentes procuram a sombra como quem já sabe o que tem ao colo, mas se é entre memórias que vivo, se elas respiram como laranjas a perfumar o ar, penso nos cavalos de Faulkner que quietos ou a suar numa ladeira são todos fibra com a vida a zumbir entre as orelhas. Vejo a Laica, mesmo a dormir está alerta, pronta a dar um salto de ginasta se alguém bater à porta, uma ignição célere como fogo em feno louro, também eu, se perigo houvesse que me mostrasse o rosto, me ergueria destas águas tépidas onde me diluo como um saco de chá, ou talvez não, talvez ficasse a ponderar o que é e o que não é.