Ao primeiro olhar parecem desengonçados, movimentos rectos e quebrados, como se tivessem as ancas fora do sítio. Erguem a cabeça de modo postiço, quase arrogante, indiferentes, uma mangueira que se desenrola, um pescoço tão longo requer um trabalho de funambulista para se manter direito. O ar à sua volta parece da espessura da água, quando voam lembram a ondulação amistosa de uma lagoa. Não são presunçosos apesar da nobreza distintiva, são belos e apalermados, uma interrupção brusca da banalidade. Têm a graça do desequilíbrio, sem par em nada do que os rodeia, recortados do décor como um traço de batom sobre uma fotografia. Provavelmente criados num gaguejo do criador, entre mundos, quando estava farto de se repetir, talvez por isso estejam excluídos da aparente justiça distributiva, escapam ao equilíbrio por todos os lados, frágeis e extravagantes, uma graça e um malogro, bizarros para o resto da fauna, só lhes resta andarem juntos, um sozinho é o inferno desmascarado, chama sobre si todos os instintos retorcidos, um tal emblema de alteridade serve de expiação aos dentes do predador, fugidos do outro lado do tempo, uma flamma que se escapou ao éden.
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