Quando acordei as mais vivas eram as gaivotas, cortavam a janela com diagonais rápidas como uma pincelada. Têm um voo sóbrio, a carantonha que mostram quando pousam no telhado deixa antever que não são para brincadeiras. Certo é que já as vi esfrangalhar um pombo, mas nunca gracejar umas com as outras. De vigia nos altos postos, não baixam a guarda com facilidade, talvez por terem de lidar com a rispidez dos mares, por se perderem na raiz dos ventos. Nem todos têm de ser gaiteiros no mundo das aves, porém, rio-me do desafio com que me olham, podem vazar-me um olho, mas falta-lhes a majestade das rapinantes, não as consigo levar a sério, são arruaceiras, fazem demasiado espalhafato para as ver com a altivez que parecem exigir. Mas foram elas que me arrancaram da cama, os guinchos salgavam o quarto ainda às escuras e quando abri a janela o voo raptou-me da dormência em que me encontrava.
Nenhum comentário:
Postar um comentário