23 de dez. de 2022

 

Quando cheguei a casa tinha um cão sentado à porta. Aproximei-me sem medo, sei que cheiram o que sentimos, como se o espírito andasse à nossa frente ao sabor do vento. Assim que lhe cheguei perto, arreganhou o focinho e mostrou-me uma fileira de dentes notável, dei um passo atrás e fiquei a olhar para ele. Não pensei de imediato na maldade do animal, mas no que seria que o deixava assim, nervoso e agressivo. Estava calmo, não me sentia mal, tinha de tentar entrar, era noite, e não estava preparado para o frio que ia cair. Se fosse um homem desarmado, onde o medo não arranja poiso, dos que olham para um bicho e o lêem de imediato, que sentem a constituição das coisas como quem sente o peso do casaco que leva aos ombros, um caminhante que nomeia as plantas como quem as cumprimenta, mas sinto o meu desastre com demasiado vigor, e este entrave deixa-me encostado ao lado mais ríspido das coisas. Talvez fosse isso, este bicho estava aqui para me impedir de entrar onde me acomodava a um romantismo estéril e inconsequente. Olhei para ele sem o desejo de passar por ele, pareceu-me pequeno e afável, voltei a aproximar-me, desta vez ladrou-me, como se fosse a última vez que me avisava. Tinha cometido o erro do costume, vi no que me aparecia à frente apenas uma vontade de superar o meu fracasso. Se era covarde o suficiente para passar, mais valia ir para outro lado, mas não havia outro lado para ir. Sentei-me no passeio, e o grande guardião veio inesperadamente sentar-se no meu colo.

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