Estamos presos no café, a chuva desaba sem piedade, num crescendo, um transe que passa pelas gotas como electricidade, penso num animal que se enamora da febre da corrida, e assim fica, até enlouquecer ou o corpo dar de si. Um regato faz da calçada um cenário quase vivo, reluzente e ondulante. No vidro do café vejo o reflexo dos funcionários do outro lado do balcão, movem-se como espectros sobre um pano de água, os céus escuros são um celeiro cheio, sem outro desejo senão despejar o ouro diáfano que confunde as qualidades do que me parecia sólido. Fixo a água a correr, num serpentear interminável, mansa e meiga como uma caixa de música, o café está quente e agitado, olho para o pequeno regato que varre as pedras num tom cristalino, perco-me no seu soluçar, um encadeamento de pequenos nadas imprecisos, bebem do ar a cinza e da pedra a palidez, mas de súbito, um ritmo de tambores junta-se à melodia que me encantava, sei que se irá calar, senão engole a cidade de uma vez, temo tornar-me permeável como se tivesse embriagado pelo hasch, as águas sobem de um poço que desconhecia, embebem-me a roupa e as ideias, até perder tudo o que me distingue e desaparecer na corrente. Perto do almoço o sol pôs fim à divagação, vagar e errar num regato é fácil de tragar, mas o mar é uma cama demasiado larga para dormir sossegado, talvez por isso seja tão difícil falar dele sem dizer trivialidades.
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