Perdi a cabeça. Não de um modo jubiloso, como quando entrava na noite a descoberto e virava os objectos do avesso, nesses tempos, era eu, com gulodice, que a entregava numa bandeja. Desta vez, tudo aconteceu de modo imperceptível, sem saber onde a pusera ou que guilhotina a amputara. Tinha a mania de andar às escuras pela casa, agora, não me atrevia a levantar sem acender a luz, tal era o medo de lhe pôr os pés em cima. Podia ter acordado sem ela, um acidente enquanto dormia, sei de casos que acordam paralíticos sem saber por quê. Os vizinhos, por modéstia, dizem-me sempre - olá, como vai? - como se nada se tivesse passado, têm uma rotina rigorosa, não se ocupam com ninharias destas. A casa estava limpa de espelhos. Foi um caminho longo até este despojamento. A renúncia do que me estagna é uma obsessão tardia e inconstante, é a minha única virtude, instável e hesitante. Os espelhos mutilam o mundo. Quando os olhava via apenas um rosto, tudo o resto se tornava uma ondulação circular à sua volta. Para olhar um espelho sem sentir esse corte frio e cirúrgico teria de ter o espírito guerreiro dos que conhecem os poderes encantatórios da imagem. Mas as imagens que me rodeavam eram pobres como a conversa de café, cheias de trejeitos que fortalecem o estereótipo. Queria ser um tipo consequente, não ia criticar o cão por enfiar o focinho no lixo e ir-me olhar ao espelho quando chegasse a casa. O meu reflexo estava por todo o lado, de um modo vago e dissimulado, os espelhos, devido à minha fraca constituição, davam-me a ilusão de uma forma adquirida. Agora que não os tenho posso pensar no impulso que me leva até eles, como uma identidade ganha à partida, impulso que me teria devorado, não fossem as interrupções, a timidez e reclusão. O que me vale é que não pensamos com a cabeça, por isso continuo as minhas divagações sem a interrupção desse apetrecho que julga poder viver separado do corpo, no seu enorme acervo de pormenores há uma exaltação exagerada que a deixa na soberba de o criador ter perdido mais tempo consigo do que com o resto do corpo. Salta fora do colarinho como um gladíolo com as suas múltiplas caras. Não admira que tanta gente se agarre a ela com unhas e dentes, o que fariam se acordassem sem o belo emblema? Estava perdido, os homens reconhecem-se pela cabeça. E eu era apenas uma grande corrente de ar.
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