Endireito-me devagar, sem ligar aparelhos e outras máquinas de sobressaltos, não me quero tornar um cavalo assustado, apesar de me seduzir o frenesi. Não tenho à mão nada que me acomode à temperatura ambiente, tenho uma guitarra, também ela solta e desafinada, estico-lhe as cordas para encher a sala com uns acordes, qualquer coisa que se intrometa no vazio que faz um chinfrim insuportável, que descubra o que lhe falta, que invente o que lhe falta, porque a angústia é demasiado prestável, está sempre aí, quieta, à espera que não me consiga rir, e nunca mais acaba, se lhe der atenção engole o espaço inteiro. Mais vale não falar do que me preocupa. Um cavalo bravo é belo de ver a correr nos montes, não de ter aos coices dentro do quarto. Confio-me a uma mão-cheia de imagens que tenho na parede como quem se confia a uma tradução de uma língua que lhe pulsa nas orelhas. Um pássaro amarelo, sobre uma sombra estilhaçada entre duas linhas cinza, parece ter atravessado um vidro, ileso como se saísse do ovo para os céus, sem ter de aprender a voar. Aprender? Dizemos nós, para marcar essa passagem do ninho para a vertigem, mas não o soube sempre? Desde o voltear incessante no ovo, amarelo como o sol, dádiva incalculável, um pescoço de cavalo degolado, dizem os hindus, desde esse rodopio, um pulsar, sem centro, destinado a ser fuga, uma flecha sem retorno. Envolto num plasma transparente de vitaminas, uma bolsa amarela onde duas silabas vibram, voar.
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