16 de dez. de 2022

 

Estou convalescente, como se saísse da bruma num cavalo ensonado. Nunca fui muito empolgado com o ser valente, esforcei-me por não ser covarde. Hoje, para ser valente, tenho de aproveitar bem os deslizes e os balanços, sem me enlear numa atenção desmedida do que faço. Os terrenos ensopados cheiram a ferro e enxofre, são um caldo acastanhado de putrefação, vejo-os da estrada onde passo de carro. Enterrava os pés na lama com prazer, não fosse estar a arribar de uma maleita e não querer andar para trás. Também estou alagado, longe da colina onde me encostava sem molhar o rabo, é normal que o fogo custe a pegar. Talvez possa chegar ao lume pela lama, essa aguada maldita. A língua tinge as coisas mais do que a tinta, e arrastar alguém pela lama é uma injúria que denigre a nobre canja de minérios. A terra enternecida, mole, adormecida sob o arrotar excessivo das águas, é um espelho baço de um céu convulso, bruto como um romântico que degola o que lhe aparece com o seu sentimento de sublime.

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