28 de abr. de 2022

Sonhei que voltei a fumar. Acordei com uma memória particularmente viva, como se o acto de fumar, normalmente votado para segundo plano, tomasse a dianteira. Apenas nos primeiros cigarros devo ter tido um gozo equivalente. A capacidade do espírito construir um prazer para si mesmo vai mais longe do que a memória de uma experiência tida, basta lembrar-me dos cigarros que fumei com mulheres que nunca conheci. A alucinação integra a aparição do mundo, há quantos anos não misturo cuidadosamente o calor imaginado com o tacto moreno de um campo por descobrir? A névoa de azul embaçado abre-se como um cortinado. Quando me dizem que o tédio atrai o cigarro, julgo que não é para lhe escapar, mas, porque lento e soturno, louro como um cereal, com uma acidez doce, traz uma letargia vegetal, como uma queimada no mato alto abre espaço para o diálogo. Há ano e meio que não fumo, mas caminhei devagar na mitologia do tabaco, também a ele parece servir a máxima de La Rochefoucauld, que nunca nos teríamos apaixonado se não tivéssemos ouvido falar de amor. Sempre presente nos momentos de deleite, ia-me escandindo os dias, entretendo o doce e trôpego manejar da transgressão.




25 de abr. de 2022

Estava livre... parei um minuto a pensar como este adjectivo se inclina a desaparecer no que se segue. No sopé da serra, entre oliveiras e carvalhos, os pequenos vasos enchem-se de pasmo. Sento-me, apalermado pelo almoço, entre fetos, sardinheiras e alguns cravos. O calor veste-os com um manto que me deixa tocá-los sem ter de me aproximar. Por momentos, como um líquido que se escapa por uma fenda, desapareço no verdor do tempo, que na sua constância parece desdenhar da minha vulnerabilidade. A obsessão das folhas no reino vegetal repercute-se num cântico de pequenas variações, uma arte da fuga que apenas se interrompe quando me chamam para lanchar. Tinham passado duas horas, revolvera os vasos na procura de uma palavra que permanecera na ponta da língua. Os que passavam na rua, que graças a deus é pouco movimentada, olhavam-me como se fosse uma avestruz, a flora devia ter-me dado uma aparência pouco humana. Não fossem estes pequenos raptos tornar-me-ia rígido como uma cepa velha. As coisas, numa irresolução remota, estilhaçada, não me permitem ficar quieto por muito tempo. Se fechar os olhos, a orla do bosque aproxima-se da casa, piscos, chamarizes e chapins tecem uma teia de sons que me ampara o desequilíbrio sem me deixar afundar na febre silvestre. Teria de ser alguém bastante dotado e livre de preocupações para conseguir escrever num estado febril, só consigo dizer algo se me for concedida a serenidade para o fazer, fico livre...

23 de abr. de 2022

 Depois do cativeiro despontam timidamente, entre o queixo e o nariz, um par de lábios. A aparição da ambígua abertura fez-se bravia, como um cãozinho que desapareceu com os lobos e regressou imprevisível e cruel. As faces passeiam-se tranquilas debaixo do uniforme, mas a boca, que nunca fora integralmente domesticada, desmancha-se em trejeitos quando algum prazer eclode, atraiçoa-nos, cospe-se e mostra os dentes quando o sangue ferve, talvez por isso se sintam indiscretos os que mostram a cara, móvel e impossível de fixar. Tzara diz que o pensamento se faz na boca, imagino a alegria de alguns perversos de tapar a ferida por onde se podia escapar o que ponderam. O pensamento forma-se na boca porque é aí que se desprotege. A boca é sempre proximidade, por vezes demasiada, enquanto os olhos são a janela de algo que se dissimula, a boca é onde o pensamento se emporcalha e se santifica.

20 de abr. de 2022

 Não estou bem no meu corpo, disse-me uma amiga. Pensei que se sentia mal e ofereci ajuda, corrigiu-me que estava bem, mas não no seu corpo, este, era hoje como uma sombra arrastada de uma fotografia de longa exposição. Podia calar-se e observar-se como se fosse uma estranha para si mesma. O dia estava límpido, depois de uma noite de chuva copiosa, a rua cheia de reflexos e arestas distintas parecia opor-se a esta separação que a descentrava do seu corpo, habituada à sombra onde imaginava coincidir consigo, onde se deitava sobre si como uma mão que pousa na outra e a sente dentro e fora ao mesmo tempo. Abandonara-se como um perfume de um frasco aberto e o que a encantava era que o boneco parecia não precisar de ordens para se orientar.

16 de abr. de 2022

 A falta de coragem nem sempre é o que parece, por vezes um sorriso menos empanado leva-me a falar com um desconhecido. Fico-me quase sempre por um bom dia desajeitado que se escapa como um coelho a uma paulada e continuo, um pouco mais leve, pois apesar de tudo um sorriso solto endireita-nos a espinha. Atravesso a avenida como se a vida estivesse quieta num lençol de água por descobrir, e penso como é perigoso não ser interrompido. Entretido nas frases que se enrolam umas nas outras, que se vão repetindo até serem um fato demasiado justo para pensar noutra coisa. Por momentos, que podem ser dias, encontro-me mais afastado de onde estou. Claro que espero que me abordem e me perguntem sobre algum mistério que apenas eu posso resolver, é uma insolência de uma natureza assustadiça. É ridículo evitar o ridículo, essa figura desengonçada que não sabe onde se apoiar, sem saber o que fazer com o corpo que abandona pelas praças, que descobre a vacuidade do que lhe aparece e se desequilibra, desperta o riso no desatento e esse riso atravessa-o como a comunhão de um desaparecimento.

13 de abr. de 2022

 Podemos encolher tanto a vida. É espantosa a elasticidade do tempo. Mas tendemos para conhecer melhor a contracção do que o estiramento. Gostamos da adelgaçar, muito mais do que uma camisola de lã lavada a quente. Porque quando aperta, desfiamo-la, deixamo-la informe, irreconhecível. Encolhe até ser apenas um par de gestos, sem recuo. O que é este recuo senão um pequeno estiramento que me permite respirar? Sem ele, estou colado a uma folha de zinco onde tudo é reflexo, angústia e exaltação. Mas não estou aí, de certo modo, é como se o jogo se jogasse sozinho. Desapareço na reacção brusca, largo-me de mão. No entanto, tudo se expõe, a fragilidade dos corpos, a lenta erosão da pele, enrugada, gasta pelas palavras áridas a que se agarra. O gesto exaltado mostra o espírito que vive sobre a faca. Estou dentro de um comboio, mas sou uma sombra que passa no exterior.



 

11 de abr. de 2022

 Ainda não tinha passado os portões do parque, já uma nuvem de pólen me acolhia na procriação arbórea. Há uma languidez particular na sexualidade das árvores, no que me toca, sensibiliza-me muito, fico com os olhos vermelhos e pingo no nariz, nos dias mais fortes uma dor de cabeça sombria que me deixa os pensamentos pouco claros. Harmoniza-me num tom menor, apesar da exaltação vegetal se expandir sinfonicamente pela cidade. Um tom menor não é necessariamente triste como se diz nas escolas menos musicais. Ligeiramente mais justo, contido, de pequenos passos, tem os seus júbilos e as suas visões. Cada tom predispõe a uma série de propriedades. É uma música que me interrompe, que me separa do que perseguia. Se nada me parasse, onde estaria? De qualquer modo, mesmo sendo uma época dissoluta do mundo floral, nem todas as árvores se entregam da mesma maneira. O plátano é, de todas as que conheço, a mais fervorosa, gosta de se estender a todo o lado. Dizem ser a árvore de Helena, aos que não consegue cativar pela beleza, cobre-os com uma nuvem para que saibam que não é sem consequências que a olham. Atravessava o parque como uma coisa lá fora que não me dizia respeito, fiquei com um bloqueio cá dentro por uma hipotética falta de pudor. Agora tudo está fora de tom, e apenas com um esforço enorme me aproprio do sacrifício.

 


 

9 de abr. de 2022

A exaltação da chuva miúda que se dispersa quase sem vontade. Imagino uma escrita que se estende, esgarçada, desprotegida, numa notação incessante, entre plantas vigorosas, uma erva rasteira que apenas os pés descalços reconhecem.

8 de abr. de 2022

Trabalho de costas para a rua. Oiço os passos secos nas pedras. As vozes abafadas que ecoam nas paredes. O nervosismo de um vendedor que deixa cair as coisas enquanto arruma o expositor. Talvez tenha na cabeça um sonho que se repete, do mesmo modo que os  gestos se repetem, também os sonhos parecem ter-se esgotado, amolecido, como se, ao recusar-lhes atenção, se diluíssem e se misturassem com os dias. Esmagados pela ausência de um gesto verdadeiro, encenamos com farrapos um gesto de acolhimento, mas não está ninguém para o receber, e quando olhamos de perto também não está ninguém para o entregar. Nos acidentes que tive, a maioria sem gravidade, algo se repetia. Entre a agitação geral, era surpreendido por uma calma inusitada, fora raptado das aparências que se despenhavam, mas continuava presente, com os reflexos mais despertos do que nunca. 

7 de abr. de 2022

 

Atravesso o centro da cidade, alegre como quem persegue um chapéu derrubado pelo vento. O sol abre-se em leque pela rua, apenas um tracejado de sombra no passeio por onde passo. À porta do café quatro homens riem com as mãos nos bolsos, desconfio que falam de negócios, são risos secos, desnivelados, parecem seguir o que ecoa mais alto, esse tem as mãos na barriga. Do outro lado uma mulher fuma encostada ao pilar da loja, assim que volto a cara para a frente o tempo corre. O parque floresce três ruas abaixo, o pólen espalha-se pela praça como fagulhas.


6 de abr. de 2022

 Cultivo o pequeno gesto, não mínimo, pequeno. Sem ser largo o suficiente para encontrar pares nos manuais de poesia, nem demasiado pequeno e acabar no armário de um coleccionador. É o único modo que consigo habitar a cidade, digo isto porque, antes de vir para aqui, quando vivia na aldeia, os meus gestos eram largos, mas não tinha casaco que me servisse, dependiam de um fervor que via espelhado em meu redor, bocejava demasiado, de boca aberta e cérebro oxigenado só me saiam advérbios de modo e outros cogumelos para o papel. Aqui nada me exige o esforço desmesurado do desportista, o horizonte está já ali à frente, e nas ruas empedradas há os bancos de jardim onde as pernas sossegam mais um bocado. Descobri tarde que tenho de pôr a minha palha no que vejo, não falo aqui do cisco no olho, mais difícil de tirar do que o faz crer o catecismo, digo intervir no que vejo, por a minha palha para subir ligeiramente o lume. O pequeno gesto é o que me permite a insistência contra a rigidez dos materiais. O tempo fragmentado requer que não penhore o assombro de uma hora morta por umas férias por vir. As férias são tempos fétidos, de falsas liberdades e de pequenas vinganças de quem acumulou frustrações. O tempo arbitrário onde me posso perder é aberto pelo pequeno gesto, gesto que se subtrai à nostalgia, na obsessão de descobrir órgão que tenha ficado por desvendar.




3 de abr. de 2022

Há tanto tempo que circundo as estremas de uma ilusão, que sou apenas um rodar sem fim. Ando às voltas no meu bairro com algumas palavras em círculo em torno a mim. Sem grandes dotes de navegação, não me afundo de repente numa conversa de café, sento-me na mesma cadeira de ontem e deixo que o rumor da mesa ao lado seja apenas o rumor da mesa ao lado, se uma frase me chama a atenção, dou-lhe o tempo que tiver, senão, fico quieto na distância onde me guardo do que acontece. Hoje saí da febre de ontem como quem sai da felicidade de estar preso e não ter nada para escolher. Foi como sair de um quarto que o hábito não consegui-o domesticar. Em tempos as descrições pareciam-me um entediante ofício de notário, agora, na ressaca da repetição, procuro pôr uma palavra depois da outra, com a minúcia que me for possível, até esse quarto ter uma aresta onde me agarrar.