Estava livre... parei um minuto a pensar como este adjectivo se inclina a desaparecer no que se segue. No sopé da serra, entre oliveiras e carvalhos, os pequenos vasos enchem-se de pasmo. Sento-me, apalermado pelo almoço, entre fetos, sardinheiras e alguns cravos. O calor veste-os com um manto que me deixa tocá-los sem ter de me aproximar. Por momentos, como um líquido que se escapa por uma fenda, desapareço no verdor do tempo, que na sua constância parece desdenhar da minha vulnerabilidade. A obsessão das folhas no reino vegetal repercute-se num cântico de pequenas variações, uma arte da fuga que apenas se interrompe quando me chamam para lanchar. Tinham passado duas horas, revolvera os vasos na procura de uma palavra que permanecera na ponta da língua. Os que passavam na rua, que graças a deus é pouco movimentada, olhavam-me como se fosse uma avestruz, a flora devia ter-me dado uma aparência pouco humana. Não fossem estes pequenos raptos tornar-me-ia rígido como uma cepa velha. As coisas, numa irresolução remota, estilhaçada, não me permitem ficar quieto por muito tempo. Se fechar os olhos, a orla do bosque aproxima-se da casa, piscos, chamarizes e chapins tecem uma teia de sons que me ampara o desequilíbrio sem me deixar afundar na febre silvestre. Teria de ser alguém bastante dotado e livre de preocupações para conseguir escrever num estado febril, só consigo dizer algo se me for concedida a serenidade para o fazer, fico livre...
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