23 de abr. de 2022

 Depois do cativeiro despontam timidamente, entre o queixo e o nariz, um par de lábios. A aparição da ambígua abertura fez-se bravia, como um cãozinho que desapareceu com os lobos e regressou imprevisível e cruel. As faces passeiam-se tranquilas debaixo do uniforme, mas a boca, que nunca fora integralmente domesticada, desmancha-se em trejeitos quando algum prazer eclode, atraiçoa-nos, cospe-se e mostra os dentes quando o sangue ferve, talvez por isso se sintam indiscretos os que mostram a cara, móvel e impossível de fixar. Tzara diz que o pensamento se faz na boca, imagino a alegria de alguns perversos de tapar a ferida por onde se podia escapar o que ponderam. O pensamento forma-se na boca porque é aí que se desprotege. A boca é sempre proximidade, por vezes demasiada, enquanto os olhos são a janela de algo que se dissimula, a boca é onde o pensamento se emporcalha e se santifica.

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