20 de abr. de 2022

 Não estou bem no meu corpo, disse-me uma amiga. Pensei que se sentia mal e ofereci ajuda, corrigiu-me que estava bem, mas não no seu corpo, este, era hoje como uma sombra arrastada de uma fotografia de longa exposição. Podia calar-se e observar-se como se fosse uma estranha para si mesma. O dia estava límpido, depois de uma noite de chuva copiosa, a rua cheia de reflexos e arestas distintas parecia opor-se a esta separação que a descentrava do seu corpo, habituada à sombra onde imaginava coincidir consigo, onde se deitava sobre si como uma mão que pousa na outra e a sente dentro e fora ao mesmo tempo. Abandonara-se como um perfume de um frasco aberto e o que a encantava era que o boneco parecia não precisar de ordens para se orientar.

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