16 de abr. de 2022

 A falta de coragem nem sempre é o que parece, por vezes um sorriso menos empanado leva-me a falar com um desconhecido. Fico-me quase sempre por um bom dia desajeitado que se escapa como um coelho a uma paulada e continuo, um pouco mais leve, pois apesar de tudo um sorriso solto endireita-nos a espinha. Atravesso a avenida como se a vida estivesse quieta num lençol de água por descobrir, e penso como é perigoso não ser interrompido. Entretido nas frases que se enrolam umas nas outras, que se vão repetindo até serem um fato demasiado justo para pensar noutra coisa. Por momentos, que podem ser dias, encontro-me mais afastado de onde estou. Claro que espero que me abordem e me perguntem sobre algum mistério que apenas eu posso resolver, é uma insolência de uma natureza assustadiça. É ridículo evitar o ridículo, essa figura desengonçada que não sabe onde se apoiar, sem saber o que fazer com o corpo que abandona pelas praças, que descobre a vacuidade do que lhe aparece e se desequilibra, desperta o riso no desatento e esse riso atravessa-o como a comunhão de um desaparecimento.

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