13 de abr. de 2022

 Podemos encolher tanto a vida. É espantosa a elasticidade do tempo. Mas tendemos para conhecer melhor a contracção do que o estiramento. Gostamos da adelgaçar, muito mais do que uma camisola de lã lavada a quente. Porque quando aperta, desfiamo-la, deixamo-la informe, irreconhecível. Encolhe até ser apenas um par de gestos, sem recuo. O que é este recuo senão um pequeno estiramento que me permite respirar? Sem ele, estou colado a uma folha de zinco onde tudo é reflexo, angústia e exaltação. Mas não estou aí, de certo modo, é como se o jogo se jogasse sozinho. Desapareço na reacção brusca, largo-me de mão. No entanto, tudo se expõe, a fragilidade dos corpos, a lenta erosão da pele, enrugada, gasta pelas palavras áridas a que se agarra. O gesto exaltado mostra o espírito que vive sobre a faca. Estou dentro de um comboio, mas sou uma sombra que passa no exterior.



 

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