Ainda não tinha passado os portões do parque, já uma nuvem de pólen me acolhia na procriação arbórea. Há uma languidez particular na sexualidade das árvores, no que me toca, sensibiliza-me muito, fico com os olhos vermelhos e pingo no nariz, nos dias mais fortes uma dor de cabeça sombria que me deixa os pensamentos pouco claros. Harmoniza-me num tom menor, apesar da exaltação vegetal se expandir sinfonicamente pela cidade. Um tom menor não é necessariamente triste como se diz nas escolas menos musicais. Ligeiramente mais justo, contido, de pequenos passos, tem os seus júbilos e as suas visões. Cada tom predispõe a uma série de propriedades. É uma música que me interrompe, que me separa do que perseguia. Se nada me parasse, onde estaria? De qualquer modo, mesmo sendo uma época dissoluta do mundo floral, nem todas as árvores se entregam da mesma maneira. O plátano é, de todas as que conheço, a mais fervorosa, gosta de se estender a todo o lado. Dizem ser a árvore de Helena, aos que não consegue cativar pela beleza, cobre-os com uma nuvem para que saibam que não é sem consequências que a olham. Atravessava o parque como uma coisa lá fora que não me dizia respeito, fiquei com um bloqueio cá dentro por uma hipotética falta de pudor. Agora tudo está fora de tom, e apenas com um esforço enorme me aproprio do sacrifício.

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