Sonhei que voltei a fumar. Acordei com uma memória particularmente viva, como se o acto de fumar, normalmente votado para segundo plano, tomasse a dianteira. Apenas nos primeiros cigarros devo ter tido um gozo equivalente. A capacidade do espírito construir um prazer para si mesmo vai mais longe do que a memória de uma experiência tida, basta lembrar-me dos cigarros que fumei com mulheres que nunca conheci. A alucinação integra a aparição do mundo, há quantos anos não misturo cuidadosamente o calor imaginado com o tacto moreno de um campo por descobrir? A névoa de azul embaçado abre-se como um cortinado. Quando me dizem que o tédio atrai o cigarro, julgo que não é para lhe escapar, mas, porque lento e soturno, louro como um cereal, com uma acidez doce, traz uma letargia vegetal, como uma queimada no mato alto abre espaço para o diálogo. Há ano e meio que não fumo, mas caminhei devagar na mitologia do tabaco, também a ele parece servir a máxima de La Rochefoucauld, que nunca nos teríamos apaixonado se não tivéssemos ouvido falar de amor. Sempre presente nos momentos de deleite, ia-me escandindo os dias, entretendo o doce e trôpego manejar da transgressão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário